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quarta-feira, 5 de março de 2014

Considerações de Allan Kardec sobre a Reencarnação

Autor: Allan Kardec

O LIVRO DOS ESPÍRITOS

222. Não é novo, dizem alguns, a ideia da 
reencarnação; ressuscitaram-no da doutrina de 
Pitágoras. Nunca dissemos ser de invenção 
moderna a Doutrina Espírita.

Constituindo uma lei da Natureza, o Espiritismo 
há de ter existido desde a origem dos tempos e 
sempre nos esforçamos por demonstrar que dele 
se descobrem sinais na antiguidade mais remota. 
Pitágoras, como se sabe, não foi o autor do 
sistema da metempsicose; ele o colheu dos 
filósofos indianos e dos egípcios, que o tinham 
desde tempos imemoriais. A ideia da 
transmigração das almas formava, pois, uma 
crença vulgar, aceita pelos homens mais 
eminentes. De que modo a adquiriram? Por uma 
revelação, ou por intuição?

Ignoramo-lo Seja, porém, como for, o que não 
padece dúvida é que uma ideia não atravessa 
séculos e séculos, nem consegue impor-se a 
inteligências de escol, se não contiver algo de 
sério. Assim, a ancianidade desta doutrina, em 
vez de ser uma objeção, seria prova a seu favor. 
Contudo, entre a metempsicose dos antigos e a 
moderna doutrina da reencarnação, há, como 
também se sabe, profunda diferença, assinalada 
pelo fato de os Espíritos rejeitarem, de maneira 
absoluta, a transmigração da alma do homem 
para os animais e reciprocamente.

Portanto, ensinando o dogma da pluralidade das 
existências corporais, os Espíritos renovam uma 
doutrina que teve origem nas primeiras idades 
do mundo e que se conservou no íntimo de 
muitas pessoas, até aos nossos dias. 
Simplesmente, eles a apresentam de um ponto 
de vista mais racional, mais acorde com as leis 
progressivas da Natureza e mais de 
conformidade com a sabedoria do Criador, 
despindo-a de todos os acessórios da 
superstição. Circunstância digna de nota é que 
não só neste livro os Espíritos a ensinaram no 
decurso dos últimos tempos: já antes da sua 
publicação, numerosas comunicações da mesma 
natureza se obtiveram em vários países, 
multiplicando-se depois, consideravelmente. 
Talvez fosse aqui o caso de examinarmos por 
que os Espíritos não parecem todos de acordo 
sobre esta questão. Mais tarde, porém, 
voltaremos a este assunto.

Examinaremos de outro ponto de vista a matéria 
e, abstraindo de qualquer intervenção dos 
Espíritos, deixemo-los de lado, por enquanto,. 
Suponhamos que esta teoria nada tenha que ver 
com eles; suponhamos mesmo que jamais se 
haja cogitado de Espíritos.

Coloquemo-nos, momentaneamente, num 
terreno neutro, admitindo o mesmo grau de 
probabilidade para ambas as hipóteses, isto é, a 
da pluralidade e a da unicidade das existências 
corpóreas, e vejamos para que lado a razão e o 
nosso próprio interesse nos farão pender.

Muitos repelem a ideia da reencarnação pelo só 
motivo de ela não lhes convir. Dizem que uma 
existência já lhes chega de sobra e que, 
portanto, não desejariam recomeçar outra 
semelhante. De alguns sabemos que saltam em 
fúria só com o pensarem que tenham de voltar à 
Terra. Perguntar-lhes-emos apenas se imaginam 
que Deus lhes pediu o parecer, ou consultou os 
gostos, para regular o Universo. Uma de duas: ou 
a reencarnação existe, ou não existe; se existe, 
nada importa que os contrarie; terão que a 
sofrer, sem que para isso lhes peça Deus 
permissão. Afiguram-se-nos os que assim falam 
um doente a dizer: Sofri hoje bastante, não 
quero sofrer mais amanhã. Qualquer que seja o 
seu mau-humor, não terá por isso que sofrer 
menos no dia seguinte, nem nos que se 
sucederem, até que se ache curado. 
Conseguintemente, se os que de tal maneira se 
externam tiverem que viver de novo,

corporalmente, tornarão a viver, reencarnarão. 
Nada lhes adiantará rebelarem-se, quais crianças 
que não querem ir para o colégio, ou 
condenados, para a prisão. Passarão pelo que 
têm de passar.

São demasiado pueris semelhantes objeções, 
para merecerem mais seriamente examinadas.

Diremos, todavia, aos que as formulam que se 
tranquilizem, que a Doutrina Espírita, no tocante 
à reencarnação, não é tão terrível como a julgam; 
que, se a houvessem estudado a fundo, não se 
mostrariam tão aterrorizados; saberiam que 
deles dependem as condições da nova existência, 
que será feliz ou desgraçada, conforme ao que 
tiverem feito neste mundo; que desde agora 
poderão elevar-se tão alto que a recaída no 
lodaçal não lhes seja mais de temer.

Suponhamos dirigir-nos a pessoas que acreditam 
num futuro depois da morte e não aos que criam 
para si a perspectiva do nada, ou pretendem que 
suas almas se vão afogar num todo universal, 
onde perdem a individualidade, como os pingos 
da chuva no oceano, o que vem a dar quase no 
mesmo. Ora, pois: se credes num futuro 
qualquer, certo não admitis que ele seja idêntico 
para todos, porquanto de outro modo, qual a 
utilidade do bem? Por que haveria o homem de 
constranger-se? Por que deixaria de satisfazer a 
todas as suas paixões, a todos os seus desejos, 
embora a custa de outrem, uma vez que por isso 
não ficaria sendo melhor, nem pior? Credes, ao 
contrário, que esse futuro será mais ou menos 
ditoso ou inditoso, conforme ao que houverdes 
feito durante a vida e então desejais que seja tão 
afortunado quanto possível, visto que há de 
durar pela eternidade, não? Mas, porventura, 
teríeis a pretensão de ser dos homens mais 
perfeitos que hajam existido na Terra e, pois, 
com direito a alcançardes de um salto a suprema 
felicidade dos eleitos? Não. Admitis então que há 
homens de valor maior do que o vosso e com 
direito a um lugar melhor, sem daí resultar que 
vos conteis entre os réprobos. Pois bem! 
Colocai-vos mentalmente, por um instante, 
nessa situação intermédia, que será a vossa, 
como acabastes de reconhecer, e imaginai que 
alguém vos venha dizer: Sofreis; não sois tão 
felizes quanto poderíeis ser, ao passo que diante 
de vós estão seres que gozam de completa 
ventura. Quereis mudar na deles a vossa posição? 
- Certamente, respondereis; que devemos fazer? 
- Quase nada: recomeçar o trabalho mal 
executado e executá-lo melhor. - Hesitaríeis em 
aceitar, ainda que a poder de muitas existências 
de provações? Façamos outra comparação mais 
prosaica. Figuremos que a um homem que, sem 
ter deixado a miséria extrema, sofre, no entanto, 
privações, por escassez de recursos, viessem 
dizer: Aqui está uma riqueza imensa de que 
podes gozar; para isto só é necessário que 
trabalhes arduamente durante um minuto.

Fosse ele o mais preguiçoso da Terra, que sem 
hesitar diria: Trabalhemos um minuto, dois 
minutos, uma hora, um dia, se for preciso. Que 
importa isso, desde que me leve a acabar os 
meus dias na fartura? Ora, que é a duração da 
vida corpórea, em confronto com a eternidade? 
Menos que um minuto, menos que um segundo.

Temos visto algumas pessoas raciocinarem deste 
modo: Não é possível que Deus, soberanamente 
bom como é, imponha ao homem a obrigação de 
recomeçar uma série de misérias e tribulações. 
Acharão, porventura, essas pessoas que há mais 
bondade em condenar Deus o homem a sofrer 
perpetuamente, por motivo de alguns momentos 
de erro, do que em lhe facultar meios de reparar 
suas faltas? “Dois industriais contrataram dois 
operários, cada um dois quais podia aspirar a se 
tornar sócio do respectivo patrão.

Aconteceu que esses dois operários certa vez 
empregaram muito mal o seu dia, merecendo 
ambos ser despedidos. Um dos industriais, não 
obstante as súplicas do seu, o mandou embora e 
o pobre operário, não tendo achado mais 
trabalho, acabou por morrer na miséria.

O outro disse ao seu: Perdeste um dia; deves-me 
por isso uma compensação. Executaste mal o teu 
trabalho; ficaste a me dever uma reparação. 
Consinto que o recomeces. Trata de executá-lo 
bem, que te conservarei ao meu serviço e 
poderás continuar aspirando à posição superior 
que te prometi.” Será preciso perguntemos qual 
dos industriais foi mais humano?

Dar-se-á que Deus, que é a clemência mesma, 
seja mais inexorável do que um homem?

Alguma coisa de pungente há na ideia de que a 
nossa sorte fique para sempre decidida, por 
efeito de alguns anos de provações, ainda 
quando de nós não tenha dependido o 
atingirmos a perfeição, ao passo que 
eminentemente consoladora é a ideia oposta, 
que nos permite a esperança. Assim, sem nos 
pronunciarmos pró ou contra a pluralidade das 
existências, sem preferirmos uma hipótese a 
outra, declaramos que, se aos homens fosse 
dado escolher, ninguém quereria o julgamento 
sem apelação. Disse um filósofo que, se Deus 
não existisse, fora mister inventá-lo, para 
felicidade do gênero humano. Outro tanto se 
poderia dizer sobre a pluralidade das existências. 
Mas, conforme atrás ponderamos, Deus

não nos pede permissão, nem consulta os nossos 
gostos. Ou isto é, ou não é. Vejamos de que lado 
estão as probabilidades e encaremos de outro 
ponto de vista o assunto, unicamente como 
estudo filosófico, sempre abstraindo do ensino 
dos Espíritos.

Se não há reencarnação, só há, evidentemente, 
uma existência corporal. Se a nossa atual 
existência corpórea é única, a alma de cada 
homem foi criada por ocasião do seu 
nascimento, a menos que se admita a 
anterioridade da alma, caso em que se caberia 
perguntar o que era ela antes do nascimento e se 
o estado em que se achava não constituía uma 
existência sob forma qualquer. Não há meio 
termo: ou a alma existia, ou não existia antes do 
corpo. Se existia, qual a sua situação? Tinha, ou 
não, consciência de si mesma? Se não tinha, é 
quase como se não existisse. Se tinha 
individualidade, era progressiva, ou estacionária? 
Num e noutro caso, a que grau chegara ao tomar 
o corpo?

Admitindo, de acordo com a crença vulgar, que a 
alma nasce com o corpo, ou, o que vem a ser o 
mesmo, que, antes de encarnar, só dispõe de 
faculdades negativas, perguntamos: 1º Por que 
mostra a alma aptidões tão diversas e 
independentes das ideias que a educação lhe fez 
adquirir?

2º Donde vem a aptidão extranormal que muitas 
crianças em tenra idade revelam, para esta ou 
aquela arte, para esta ou aquela ciência, 
enquanto outras se conservam inferiores ou 
medíocres durante a vida toda?

3º Donde, em uns, as ideias inatas ou intuitivas, 
que noutros não existem?

4º Donde, em certas crianças, o instituto precoce 
que revelam para os vícios ou para as virtudes, 
os sentimentos inatos de dignidade ou de 
baixeza, contrastando com o meio em que elas 
nasceram?

5º Por que, abstraindo-se da educação, uns 
homens são mais adiantados do que outros?

6º Por que há selvagens e homens civilizados? Se 
tomardes de um menino hotentote recém-
nascido e o educardes nos nossos melhores 
liceus, fareis dele algum dia um Laplace ou um 
Newton?

Qual a filosofia ou a teosofia capaz de resolver 
estes problemas? É fora de dúvida que, ou as 
almas são iguais ao nascerem, ou são desiguais. 
Se são iguais, por que, entre elas, tão grande 
diversidade de aptidões? Dir-se-á que isso 
depende do organismo. Mas, então, achamo-nos 
em presença da mais monstruosa e imoral das 
doutrinas. O homem seria simples máquina, 
joguete da matéria; deixaria de ter a 
responsabilidade de seus atos, pois que poderia 
atribuir tudo às suas imperfeições físicas. Se 
almas são desiguais, é que Deus as criou assim. 
Nesse caso, porém, por que a inata superioridade 
concedida a algumas?

Corresponderá essa parcialidade à justiça de 
Deus e ao amor que Ele consagra igualmente a 
todas suas criaturas?

Admitamos, ao contrário, uma série de 
progressivas existências anteriores para cada 
alma e tudo se explica. Ao nascerem, trazem os 
homens a intuição do que aprenderam antes: São 
mais ou menos adiantados, conforme o número 
de existências que contem, conforme já estejam 
mais ou menos afastados do ponto de partida. 
Dá-se aí exatamente o que se observa numa 
reunião de indivíduos de todas as idades, onde 
cada um terá desenvolvimento proporcionado ao 
número de anos que tenha vivido. As existências 
sucessivas serão, para a vida da alma, o que os 
anos são para a do corpo. Reuni, em certo dia, 
um milheiro de indivíduos de um a oitenta anos; 
suponde que um véu encubra todos os dias 
precedentes ao em que os reunistes e que, em 
consequência, acreditais que todos nasceram na 
mesma ocasião. Perguntareis naturalmente como 
é que uns são grandes e outros pequenos, uns 
velhos e jovens outros, instruídos uns, outros 
ainda ignorantes. Se, porém, dissipando-se a 
nuvem que lhes oculta o passado, vierdes a saber 
que todos hão vivido mais ou menos tempo, tudo 
se vos tornará explicado. Deus, em Sua justiça, 
não pode ter criado almas desigualmente 
perfeitas. Com a pluralidade das existências, a 
desigualdade que notamos nada mais apresenta 
em oposição à mais rigorosa equidade: é que 
apenas vemos o presente e não o passado. A 
este raciocínio serve de base algum sistema, 
alguma suposição gratuita? Não. Partimos de um 
fato patente, incontestável: a desigualdade das 
aptidões e do desenvolvimento intelectual e 
moral e verificamos que nenhuma das teorias 
correntes o explica, ao passo que uma outra 
teoria lhe dá explicação simples, natural e lógica. 
Será racional preferir-se as que não explicam 
àquela que explica?

À vista da sexta interrogação acima, dirão 
naturalmente que o hotentote é de raça inferior. 
Perguntaremos, então, se o hotentote é ou não 
um homem. Se é, por que a ele e à sua raça 
privou Deus dos privilégios concedidos à raça 
caucásica? Se não é, por que tentar fazê-lo 
cristão? A Doutrina Espírita tem mais amplitude 
do que tudo isto. Segundo ela, não há muitas 
espécies de homens, há tão-somente cujos 
espíritos estão mais ou menos atrasados, porém, 
todos suscetíveis de progredir. Não é este 
princípio mais conforme à justiça de Deus?

Vimos de apreciar a alma com relação ao seu 
passado e ao seu presente. Se a considerarmos, 
tendo em vista o seu futuro, esbarraremos nas 
mesmas dificuldades.

1ª Se a nossa existência atual é que, só ela, 
decidirá da nossa sorte vindoura, quais, na vida 
futura, as posições respectivas do selvagem e do 
homem civilizado? Estarão no mesmo nível, ou se 
acharão distanciados um do outro, no tocante à 
soma de felicidade eterna que lhes caiba?

2ª O homem que trabalhou toda a sua vida por 
melhorar-se, virá a ocupar a mesma categoria de 
outro que se conservou em grau inferior de 
adiantamento, não por culpa sua, mas porque 
não teve tempo, nem possibilidade de se tornar 
melhor?

3ª O que praticou o mal, por não ter podido 
instruir-se, será culpado de um estado de coisas 
cuja existência em nada dependeu dele?

4ª Trabalha-se continuamente por esclarecer, 
moralizar, civilizar os homens. Mas, em 
contraposição a um que fica esclarecido, milhões 
de outros morrem todos os dias antes que a luz 
lhes tenha chegado. Qual a sorte destes últimos? 
Serão tratados como réprobos? No caso 
contrário, que fizeram para ocupar categoria 
idêntica à dos outros?

5ª Que sorte aguarda os que morrem na infância, 
quando ainda não puderam fazer nem o bem, 
nem o mal? Se vão para o meio dos eleitos, por 
que esse favor, sem que coisa alguma hajam 
feito para merecê-lo? Em virtude de que 
privilégio eles se veem isentos das tribulações da 
vida?

Haverá alguma doutrina capaz de resolver esses 
problemas? Admitam-se as existências 
consecutivas e tudo se explicará conformemente 
à justiça de Deus. O que se não pôde fazer numa 
existência faz-se em outra. Assim é que ninguém 
escapa à lei do progresso, que cada um será 
recompensado segundo o seu merecimento real 
e que ninguém fica excluído da felicidade 
suprema, a que todos podem aspirar, quaisquer 
que sejam os obstáculos com que topem no 
caminho.

Essas questões facilmente se multiplicariam ao 
infinito, porquanto inúmeros são os problemas 
psicológicos e morais que só na pluralidade das 
existências encontram solução.

Limitamo-nos a formular as de ordem mais 
geral. Como quer que seja, alegar-se-á talvez 
que a Igreja não admite a doutrina da 
reencarnação; que ela subverteria a religião. Não 
temos o intuito de tratar dessa questão neste 
momento. Basta-nos o havermos demonstrado 
que aquela doutrina é eminentemente moral e 
racional. Ora, o que é moral e racional não pode 
estar em oposição a uma religião que proclama 
ser Deus a bondade e a razão por excelência. 
Que teria sido da religião, se, contra a opinião 
universal e o testemunho da ciência, se houvesse 
obstinadamente recusado a render-se à 
evidência e expulsado de seu seio todos os que 
não acreditassem no movimento do Sol ou nos 
seis dias da criação? Que crédito houvera 
merecido e que autoridade teria tido, entre povos 
cultos, uma religião fundada em erros manifestos 
e que os impusesse como artigos de fé? Logo 
que a evidência se patenteou, a Igreja, 
criteriosamente, se colocou do lado da evidência. 
Uma vez provado que certas coisas existentes 
seriam impossíveis sem a reencarnação, que, a 
não ser por esse meio, não se consegue explicar 
alguns pontos do dogma, cumpre admiti-lo e 
reconhecer meramente aparente o antagonismo 
entre esta doutrina e a dogmática. Mais adiante 
mostraremos que talvez seja muito menor do 
que se pensa a distância que, da doutrina das 
vidas sucessivas, separa a religião e que a esta 
não faria aquela doutrina maior mal do que lhe 
fizeram as descobertas do movimento da Terra e 
dos períodos geológicos, as quais, à primeira 
vista, pareceram desmentir os textos sagrados. 
Demais, o princípio da reencarnação ressalta de 
muitas passagens das Escrituras, achando-se 
especialmente formulado, de modo explícito, no 
Evangelho:

“Quando desciam da montanha (depois da 
transfiguração), Jesus lhes fez esta 
recomendação: Não faleis a ninguém do que 
acabastes de ver, até que o Filho do homem 
tenha ressuscitado, dentre os mortos. 
Perguntaram-lhe então seus discípulos: Por que 
dizem os escribas ser preciso que primeiro venha 
Elias? Respondeu-lhes Jesus: É certo que Elias há 
de vir e que restabelecerá todas as coisas. Mas, 
eu vos declaro que Elias já veio, e eles não o 
conheceram e o fizeram sofrer como 
entenderam. Do mesmo modo darão a morte ao 
Filho do homem. Compreenderam então seus 
discípulos que era de João Batista que ele lhes 
falava.” (São Mateus, cap. XVII.)

Pois que João Batista fora Elias, houve 
reencarnação do Espírito ou da alma de Elias no 
corpo de João Batista.

Em suma, como quer que opinemos acerca da 
reencarnação, quer a aceitemos, quer não, isso 
não constituirá motivo para que deixemos de 
sofrê-la, desde que ela exista, mau grado a 
todas as crenças em contrário. O essencial está 
em que o ensino dos Espíritos é eminentemente 
cristão; apóia-se na imortalidade da alma, nas 
penas e recompensas futuras, na justiça de Deus, 
no livre-arbítrio do homem, na moral do Cristo. 
Logo, não é antireligioso.

Temos raciocinado, abstraindo, como dissemos, 
de qualquer ensinamento espírita que, para 
certas pessoas, carece de autoridade. Não é 
somente porque veio dos Espíritos que nós e 
tantos outros nos fizemos adeptos da pluralidade 
das existências. É porque essa doutrina nos 
pareceu a mais lógica e porque só ela resolve 
questões até então insolúveis.

Ainda quando fosse da autoria de um simples 
mortal, tê-la-íamos igualmente adotado e não 
houvéramos hesitado um segundo mais em 
renunciar às ideias que esposávamos. Em sendo 
demonstrado o erro, muito mais que perder do 
que ganhar tem o amor-próprio, com o se 
obstinar na sustentação de uma ideia falsa. 
Assim também, tê-la-íamos repelido, mesmo 
que provindo dos Espíritos, se nos parecera 
contrária à razão, como repelimos muitas outras, 
pois sabemos, por experiência, que não se deve 
aceitar cegamente tudo o que venha deles, da 
mesma forma que se não deve adotar às cegas 
tudo o que proceda dos homens. O melhor título 
que, ao nosso ver, recomenda a ideia da 
reencarnação é o de ser, antes de tudo, lógica. 
Outro, no entanto, ela apresenta: o de a 
confirmarem os fatos, fatos positivos e por bem 
dizer, materiais, que um estudo atento e 
criterioso revela a quem se dê ao trabalho de 
observar com paciência e perseverança e diante 
dos quais não há mais lugar para a dúvida. 
Quando esses fatos se houverem vulgarizado, 
como os da formação e do movimento da Terra, 
forçoso será que todos se rendam à evidência e 
os que se lhes colocaram em oposição ver-se-ão 
constrangidos a desdizer-se.

Reconheçamos, portanto, em resumo, que só a 
doutrina da pluralidade das existências explica o 
que, sem ela, se mantém inexplicável; que é 
altamente consoladora e conforme à mais 
rigorosa justiça; que constitui para o homem a 
âncora de salvação que Deus, por misericórdia, 
lhe concedeu.

As próprias palavras de Jesus não permitem 
dúvida a tal respeito. Eis o que se lê no 
Evangelho de São João, capítulo III:

3. Respondendo a Nicodemos, disse Jesus: Em 
verdade, em verdade, te digo que, se um homem 
não nascer de novo, não poderá ver o reino de 
Deus.

4. Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem 
nascer já estando velho? Pode tornar ao ventre de 
sua mãe para nascer segunda vez?

5. Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te 
digo que, se um homem não renascer da água e 
do Espírito, não poderá entrar no reino de Deus. 
O que é nascido da carne é carne e o que é 
nascido do Espírito é Espírito. Não te admires de 
que eu te tenha dito: é necessário que torneis a 
nascer. (Ver, adiante, o parágrafo “Ressurreição 
da carne”, n° 1010.)
Fonte:http://www.oespiritismo.com.br/textos/ver.php?id1=363

O suicida do trem

Autor: Divaldo Franco



Eu nunca me esquecerei que um dia havia lido num jornal acerca de um suicídio terrível, que me impactou: um homem jogou-se sobre a linha férrea, sob os vagões da locomotiva e foi triturado. E o jornal, com todo o estardalhaço, contava a tragédia, dizendo que aquele era um pai de dez filhos, um operário modesto.



Aquilo me impressionou tanto que resolvi orar por esse homem. Tenho uma cadernetinha para anotar nomes de pessoas necessitadas. Eu vou orando por elas e, de vez em quando, digo: se este aqui já evoluiu, vou dar o seu lugar para outro; não posso fazer mais.



Assim, coloquei-lhe o nome na minha caderneta de preces especiais - as preces que faço pela madrugada. Da minha janela eu vejo uma estrela e acompanho o seu ciclo; então, fico orando, olhando para ela, conversando. Somos muito amigos, já faz muitos anos. Ela é paciente, sempre aparece no mesmo lugar e desaparece no outro.



Comecei a orar por esse homem desconhecido. Fazia a minha prece, intercedia, dava uma de advogado, e dizia: Meu Jesus, quem se mata (como dizia minha mãe) "não está com o juízo no lugar". Vai ver que ele nem quis se matar; foram as circunstâncias. Orava e pedia, dedicando-lhe mais de cinco minutos (e eu tenho uma fila bem grande), mas esse era especial.



Passaram-se quase quinze anos e eu orando por ele diariamente, onde quer que estivesse. Um dia, eu tive um problema que me fez sofrer muito. Nessa noite cheguei à janela para conversar com a minha estrela e não pude orar. Não estava em condições de interceder pelos outros.



Encontrava-me com uma grande vontade de chorar; mas, sou muito difícil de fazê-lo por fora, aprendi a chorar por dentro. Fico aflito, experimento a dor, e as lágrimas não saem. (Eu tenho uma grande inveja de quem chora aquelas lágrimas enormes, volumosas, que não consigo verter). Daí a pouco a emoção foi-me tomando e, quando me dei conta, chorava.



Nesse ínterim, entrou um Espírito e me perguntou: Por que você está chorando? Ah! Meu irmão - respondi - hoje estou com muita vontade de chorar, porque sofro um problema grave e, como não tenho a quem me queixar, porquanto eu vivo para consolar os outros, não lhes posso contar os meus sofrimentos. Além do mais, não tenho esse direito; aprendi a não reclamar e não me estou queixando.



O Espírito retrucou: Divaldo, e seu eu lhe pedir para que você não chore, o que é que você fará? Hoje nem me peça. Porque é o único dia que eu consegui fazê-lo. Deixe-me chorar! Não faça isto, pediu. Se você chorar eu também chorarei muito.



Mas por que você vai chorar? perguntei-lhe: Porque eu gosto muito de você. Eu amo muito a você e amo por amor. Como é natural, fiquei muito contente com o que ele me dizia.



Você me inspira muita ternura - prosseguiu - e o amo por gratidão. Há muitos anos eu me joguei embaixo das rodas de um trem. E não há como definir a sensação da eterna tragédia. Eu ouvia o trem apitar, via-o crescer ao meu encontro e sentia-lhe as rodas me triturando, sem terminar nunca e sem nunca morrer. Quando acabava de passar, quando eu ia respirar, escutava o apito e começava tudo outra vez, eternamente.



Até que um dia escutei alguém chamar pelo meu nome. Fê-lo com tanto amor, que aquilo me aliviou por um segundo, pois o sofrimento logo voltou. Mais tarde, novamente, ouvi alguém chamar por mim. Passei a ter interregnos em que alguém me chamava, eu conseguia respirar, para agüentar aquele morrer que nunca morria e não sei lhe dizer o tempo que passou.



Transcorreu muito tempo mesmo, até o momento em que deixei de ouvir o apito do trem, para escutar a pessoa que me chamava. Dei-me conta, então, que a morte não me matara e que alguém pedia a Deus por mim. Lembrei-me de Deus, de minha mãe, que já havia morrido. Comecei a refletir que eu não tinha o direito de ter feito aquilo, passei a ouvir alguém dizendo: "Ele não fez por mal. Ele não quis matar-se." Até que um dia esta força foi tão grande que me atraiu; aí eu vi você nesta janela, chamando por mim.



Eu perguntei - continuou o Espírito - quem é? Quem está pedindo a Deus por mim, com tanto carinho, com tanta misericórdia? Mamãe surgiu e esclareceu-me: “É uma alma que ora pelos desgraçados. Comovi-me, chorei muito e a partir daí passei a vir aqui, sempre que você me chamava pelo nome. (Note que eu nunca o vira, face às diferenças vibratórias.)



Quando adquiri a consciência total - prosseguiu ele - já se haviam passado mais de catorze anos. Lembrei-me de minha família e fui à minha casa. Encontrei a esposa blasfemando, injuriando-me:



"Aquele desgraçado desertou, reduzindo-nos à mais terrível miséria. A minha filha é hoje uma perdida, porque não teve comida e nem paz e foi-se vender para tê-los. Meu filho é um bandido, porque teve um pai egoísta, que se matou para não enfrentar a responsabilidade. Deixando-nos, ele nos reduziu a esse estado."



Senti-lhe o ódio terrível. Depois, fui atraído à minha filha, num destes lugares miseráveis, onde ela estava exposta como mercadoria. Fui visitar meu filho na cadeia.



Divaldo - falou-me emocionado - aí eu comecei a somar às "dores físicas" a dor moral, dos danos que o meu suicídio trouxe. Porque o suicida não responde só pelo gesto, pelo ato da autodestruição, mas, também, por toda uma onda de efeitos que decorrem do seu ato insensato, sendo tudo isto lançado a seu débito na lei de responsabilidades.



Além de você, mais ninguém orava, ninguém tinha dó de mim, só você, um estranho. Então hoje, que você está sofrendo, eu lhe venho pedir: em nome de todos nós, os infelizes, não sofra! Porque se você entristecer, o que será de nós, os que somos permanentemente tristes? Se você agora chora, que será de nós, que estamos aprendendo a sorrir com a sua alegria? Você não tem o direito de sofrer, pelo menos por nós, e por amor a nós, não sofra mais.



Aproximou-se, me deu um abraço, encostou a cabeça no meu ombro e chorou demoradamente. Doridamente, ele chorou. Igualmente emocionado, falei-lhe: Perdoe-me, mas eu não esperava comovê-lo.



São lágrimas de felicidade. Pela primeira vez, eu sou feliz, porque agora eu me posso reabilitar. Estou aprendendo a consolar alguém. E a primeira pessoa a quem eu consolo é você.



Livro: O Semeador de Estrelas, de Suely Caldas Schubert

Fonte:http://www.oespiritismo.com.br/textos/ver.php?id1=371

segunda-feira, 3 de março de 2014

Anália Franco

Grandes Vultos do Espiritismo
Nascida na cidade de Resende, Estado do Rio de Janeiro, no dia 1o. de fevereiro de 1856, e desencarnada em S. Paulo, no dia 13 de janeiro de 1919.
Seu nome de solteira era Anália Emília Franco. Após consorciar- se em matrimônio com Francisco Antônio Bastos, seu nome passou a ser Anália Franco Bastos, entretanto, é mais conhecida por Anália Franco.
Com 16 anos de idade entrou num Concurso de Câmara dessa cidade e logrou aprovação para exercer o cargo de professora primária. Trabalhou como assistente de sua própria mãe durante algum tempo. Anteriormente a 1875 diplomou- se Normalista, em S. Paulo.
Foi após a Lei do Ventre Livre que sua verdadeira vocação se exteriorizou: a vocação literária. Já era por esse tempo notável como literata, jornalista e poetisa, entretanto, chegou ao seu conhecimento que os nascituros de escravas estavam previamente destinados à "Roda" da Santa Casa de Misericórdia. Já perambulavam, mendicantes, pelas estradas e pelas ruas, os negrinhos expulsos das fazendas por impróprios para o trabalho. Não eram, como até então "negociáveis", com seus pais e os adquirentes de cativos davam preferência às escravas que não tinham filhos no ventre. Anália escreveu, apelando para as mulheres fazendeiras. Trocou seu cargo na Capital de São Paulo por outro no Interior, a fim de socorrer as criancinhas necessitadas. Num bairro duma cidade do norte do Estado de S. Paulo conseguiu uma casa para instalar uma escola primária. Uma fazendeira rica lhe cedeu a casa escolar com uma condição, que foi frontalmente repelida por Anália: não deveria haver promiscuidade de crianças brancas e negras. Diante dessa condição humilhante foi recusada a gratuidade do uso da casa, passando a pagar um aluguel. A fazendeira guardou ressentimento à altivez da professora, porém, naquele local Anália inaugurou a sua primeira e original "Casa Maternal". Começou a receber todas as crianças que lhe batiam à porta, levadas por parentes ou apanhadas nas moitas e desvios dos caminhos. A fazendeira, abusando do prestígio político do marido, vendo que a sua casa, embora alugada, se transformara num albergue de negrinhos, resolveu acabar com aquele "escândalo" em sua fazenda. Promoveu diligências junto ao coronel e este conseguiu facilmente a remoção da professora. Anália foi para a cidade e alugou uma casa velha, pagando de seu bolso o aluguel correspondente à metade do seu ordenado. Como o restante era insuficiente para a alimentação das crianças, não trepidou em ir, pessoalmente, pedir esmolas para a meninada. Partiu de manhã, à pé, levando consigo o grupinho escuro que ela chamava, em seus escritos, de "meus alunos sem mães". Numa folha local anunciou que, ao lado da escola pública, havia um pequeno "abrigo" para as crianças desamparadas. A fama, nem sempre favorável da novel professora, encheu a cidade. A curiosidade popular tomou- se de espanto, num domingo de festa religiosa. Ela apareceu nas ruas com seus "alunos sem mães", em bando precatório. Moça e magra, modesta e altiva, aquela impressionante figura de mulher, que mendigava para filhos de escravas, tornou- se o escândalo do dia. Era uma mulher perigosa, na opinião de muitos. Seu afastamento da cidade principiou a ser objeto de consideração em rodas políticas, nas farmácias. Mas rugiu a seu favor um grupo de abolicionistas e republicanos, contra o grande grupo de católicos, escravocratas e monarquistas.
Com o decorrer do tempo, deixando algumas escolas maternais no Interior, veio para S. Paulo. Aqui entrou brilhantemente para o grupo abolicionista e republicano. Sua missão, porém, não era política. Sua preocupação maior era com as crianças desamparadas, o que a levou a fundar uma revista própria, intitulada "Álbum das Meninas", cujo primeiro número veio a lume a 30 de abril de 1898. O artigo de fundo tinha o título "Às mães e educadoras". Seu prestígio no seio do professorado já era grande quando surgiram a abolição da escravatura e a República. O advento dessa nova era encontrou Anália com dois grandes colégios gratuitos para meninas e meninos. E logo que as leis o permitiram, ela, secundada por vinte senhoras amigas, fundou o instituto educacional que se denominou "Associação Feminina Beneficente e Instrutiva", no dia 17 de novembro de 1901, com sede no Largo do Arouche, em S. Paulo.
Em seguida criou várias "Escolas Maternais" e "Escolas Elementares", instalando, com inauguração solene a 25 de janeiro de 1902, o "Liceu Feminino", que tinha por finalidade instruir e preparar professoras para a direção daquelas escolas, com o curso de dois anos para as professoras de "Escolas Maternais" e de três anos para as "Escolas Elementares".
Anália Franco publicou numerosos folhetos e opúsculos referentes aos cursos ministrados em suas escolas, tratados especiais sobre a infância, nos quais as professoras encontraram meios de desenvolver as faculdades afetivas e morais das crianças, instruindo- as ao mesmo tempo. O seu opúsculo "O Novo Manual Educativo", era dividido em três partes: Infância, Adolescência e Juventude.
Em 1o. de dezembro de 1903, passou a publicar "A Voz Maternal", revista mensal com a apreciável tiragem de 6.000 exemplares, impressos em oficinas próprias.
A Associação Feminina mantinha um Bazar na rua do Rosário n.o. 18, em S. Paulo, para a venda dos artefatos das suas oficinas, e uma sucursal desse estabelecimento na Ladeira do Piques n.o. 23.
Anália Franco mantinha Escolas Reunidas na Capital e Escolas Isoladas no Interior, Escolas Maternais, Creches na Capital e no Interior do Estado, Bibliotecas anexas às escolas, Escolas Profissionais, Arte Tipográfica, Curso de Escrituração Mercantil, Prática de Enfermagem e Arte Dentária, Línguas (francês, italiano, inglês e alemão); Música, Desenho, Pintura, Pedagogia, Costura, Bordados, Flores artificiais e Chapéus, num total de 37 instituições.
Era romancista, escritora, teatróloga e poetisa. Escreveu uma infinidade de livretos para a educação das crianças e para as Escolas, os quais são dignos de serem adotados nas Escolas públicas.
Era espírita fervorosa, revelando sempre inusitado interesse pelas coisas atinentes à Doutrina Espírita.
Produziu a sua vasta cultura três ótimos romances: "A Égide Materna", "A Filha do Artista", e "A Filha Adotiva". Foi autora de numerosas peças teatrais, de diálogos e de várias estrofes, destacando- se "Hino a Deus", "Hino a Ana Nery", "Minha Terra", "Hino a Jesus" e outros.
Em 1911 conseguiu, sem qualquer recurso financeiro, adquirir a "Chácara Paraíso". Eram 75 alqueires de terra, parte em matas e capoeiras e o restante ocupado com benfeitorias diversas, entre as quais um velho solar, ocupado durante longos anos por uma das mais notáveis figuras da História do Brasil: Diogo Antônio Feijó.
Nessa chácara fundou Anália Franco a "Colônia Regeneradora D. Romualdo", aproveitando o casarão, a estrebaria e a antiga senzala, internando ali sob direção feminina, os garotos mais aptos para a Lavoura, a horticultura e outras atividades agropastoris, recolhendo ainda moças desviadas, conseguindo assim regenerar centenas de mulheres.
A vasta sementeira de Anália Franco consistiu em 71 Escolas, 2 albergues, 1 colônia regeneradora para mulheres, 23 asilos para crianças órfãs, 1 Banda Musical Feminina, 1 orquestra, 1 Grupo Dramático, além de oficinas para manufatura de chapéus, flores artificiais, etc., em 24 cidades do Interior e da Capital.
Sua desencarnação ocorreu precisamente quando havia tomado a deliberação de ir ao Rio de Janeiro fundar mais uma instituição, idéia essa concretizada posteriormente pelo seu esposo, que ali fundou o "Asilo Anália Franco".
A obra de Anália Franco foi, incontestavelmente, uma das mais salientes e meritórias da História do Espiritismo.
Fonte:http://www.espirito.org.br/portal/biografias/analia-franco.html

Peixotinho

Dentre os grandes vultos da doutrina espírita de nosso país, temos que inscrever o nome de Francisco Peixoto Lins, o “Peixotinho”, notável médium de efeitos físicos, considerado o maior médium de materializações do Brasil. 

Nasceu em Pacatuba, no Ceará, em 01 de fevereiro de 1905, e desencarnou em Campos, no Rio de Janeiro, em 16 de junho de 1966.

Teve uma infância cheia de dificuldades pois, tendo perdido os pais muito novo, foi criado por seus tios.

O desejo de seus tios era vê-lo seguir a carreira eclesiástica. Matricularam-no no seminário onde Peixotinho teve várias punições disciplinares por “ousar” contestar os dogmas da Igreja, uma vez que ele não entendia a razão de tantas diversidades. Se somos todos filhos de Deus, quais as razões de uns nascerem sadios perfeitos e outros doentes e deformados?.

Na primeira fase de sua vida teve que conviver com os primeiros indícios de uma mediunidade extraordinária que muito o debilitou por desconhecer tais fenômenos, e no seu convívio ninguém estava preparado para ajudá-lo. 

Foi acometido de catalepsia e dado como morto pelos próprios familiares que quase o sepultaram vivo. Nesta ocasião um vizinho bondoso o levou até um Centro Espírita e, em menos de um mês, apresentou melhoras sensíveis. Neste Centro trabalhava o grande tribuno espírita Viana de Carvalho, que lhe falou da reencarnação e das leis imutáveis de nosso Pai Maior.

No livro “Personagens do Espiritismo”, seus autores Antonio de Souza Lucena e Paulo Alves Godoy apontam  a fase obsessiva porque passou Peixotinho como sua “Estrada de Damasco”, onde descobriu a incomensurável bondade de Deus e  a oportunidade dada a todos na caminhada  rumo à redenção espiritual.

Pobre na verdadeira acepção do termo, Peixotinho jamais admitiu tirar o mais insignificante proveito pessoal em decorrência de suas faculdades, impondo-se a esse respeito rigorosa conduta, modelo a ser seguido dentro da Doutrina, dando de graça o que de graça se recebe. As faculdades mediúnicas não são bens disponíveis e negociáveis.

A gama de faculdades mediúnicas de Peixotinho era das mais variadas, mas, a que despertava maior atenção, eram os fenômenos de materializações, dos quais apontaremos apenas alguns.

Os transportes de pedras e de cristais eram comuns. Incomum era a origem das pedras. Umas eram de algum lugar do Oceano Pacífico; outras do Paraguai, Inglaterra  e outras do Mar Morto. Algumas destas pedras estavam impregnadas de perfumes e de odores totalmente desconhecidos, porém, agradáveis ao olfato. O fenômeno do transporte de pedras tem o nome técnico de aporte, e é muito raro.

Muitos dos objetos materializados nas sessões em que Peixotinho participava estão no Museu Allan Kardec, no município de Campos. Alem dos objetos já citados, no museu também podem ser vistos fotos e cartas que Chico Xavier enviava ao médium.
Nas sessões aconteciam assistências espirituais e, por vezes, até cirurgias, além de muito estudo da codificação e das obras espíritas.

Além das materializações de pedras e cristais, havia a moldagem de mãos, pés e rostos em parafina, dos espíritos que ali se materializavam. Em algumas sessões aconteceram fenômenos de escrita direta de espírito no papel, não havendo nem caneta e nem lápis junto ao mesmo.

A irmã Scheila materializou-se em uma das reuniões e deixou escrito determinado Hino, de trás para frente e, que só pode ser lido do lado inverso ou ante um espelho. 

Recebeu mensagens em Japonês sendo umas escritas no idioma clássico ou hiraganá e outra no dialeto popular chamado tacaná. Estas explicações foram dadas pelo Espírito Tongo, que se materializou em uma sessão e deu as explicações, em vista da dificuldade que teve uma professora de Japonês, para fazer a tradução.

Com Peixotinho aconteciam coisas realmente extraordinárias. Uma das mais interessantes aconteceu em uma reunião onde, ao psicografar com uma mão, dava mensagem de caráter científico, e com a outra de teor filosófico, enquanto transmitia uma mensagem psicofônica ou seja, três espíritos se comunicando ao mesmo tempo, pelo mesmo médium.

Pesquisando a vida e a obra de Peixotinho, podemos constatar que ele contribuiu sobremaneira para a difusão e comprovação da parte fenomênica do espiritismo. A comprovação daquela vida dinâmica do espírito que era revelada nos livros, sobretudo de André Luiz, tinha tantas semelhanças com os fenômenos produzidos por Peixotinho, que nos deixa a impressão que as revelações feitas através de Chico Xavier; a referência feita aos fenômenos de efeitos físicos, sobretudo das materializações, tem como exemplo algumas das reuniões de Peixotinho, tal a similaridade dos fatos, como se pode ver no livro “Missionários da Luz”.

Uma das maiores contribuições de Peixotinho para com o movimento espírita foi o papel que ele desempenhou na consolidação da utilização da Homeopatia. Hoje a Homeopatia já foi admitida nos meios acadêmicos e no tratamento da moderna medicina, liberando os espíritos das prescrições posto que os médicos homeopatas estão para atender e receitar os remédios homeopáticos.

A vida mediúnica deste valoroso médium é a constatação definitiva que as verdades e os fenômenos espíritas podem ser comprovados cientificamente. Já passamos da fase das comprovações, cabendo-nos, agora, o estudo, o aprendizado e a efetiva aplicação dos princípios da doutrina Espírita e, em especial, a caridade que ele tão bem soube praticar.
Jose Carlos Branco
 

Manifesto Espírita sobre o Aborto

Federação Espírita Brasileira

Quando começam os direitos da pessoa?

Para o Espiritismo, a existência de um princípio espiritual ligado ao corpo desde o momento da concepção não é mero artigo de fé. Trata-se de evidência comprovada pela observação – embora a chamada Ciência oficial ainda não tenha reconhecido tal evidência. Relatos de pessoas, em estado de hipnose ou em lembranças espontâneas, mesmo de crianças, que retratam passagens de outras vidas e de época em que o ser ainda se encontrava no ventre materno, revelam uma consciência pré-existente ao corpo. Essas evidências, que vêm sendo estudadas nos últimos anos por pesquisadores de diversos países, confirmam a posição da Doutrina Espírita, em O Livro dos Espíritos (Questão 344):

"Em que momento a alma se une ao corpo?"

A união começa na concepção, mas só é completa por ocasião do nascimento. Desde o instante da concepção, o Espírito designado para habitar certo corpo a este se liga por um laço fluídico, que cada vez vai apertando até o instante em que a criança vê a luz (...).
Desse modo, o ser que se desenvolve no ventre materno, a partir da fecundação do óvulo já é uma pessoa – sujeito de direitos – constituída de corpo e alma.
Felizmente, a Constituição Brasileira e o Código Civil são, neste ponto, coerentes, com a formação espiritualista do povo brasileiro (incluindo católicos, protestantes, espíritas e outras denominações, que constituem, no seu conjunto, a maioria da nossa população). O artigo 5º da Constituição assegura "a inviolabilidade do direito à vida", elegendo assim tal direito a princípio absoluto, não passível de relativização. E o artigo 4º do Código Civil afirma que "a personalidade civil do homem começa pelo nascimento com vida, mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro". Reconhece-se desse modo que o nascituro já é uma pessoa, sujeito de direitos, o que está de acordo com todas as concepções espiritualistas acima citadas.

A Lei e o Aborto

O Código Penal de 1940, em seu artigo 128, diz o seguinte: "não se pune o aborto se não há outro meio de salvar a vida da gestante e ou se a gravidez resulta de estupro". Em vista disto, os parlamentares elaboraram o projeto de lei 20/91, que regulamenta o seu atendimento na rede pública de saúde. Esse projeto, aprovado recentemente pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, na prática, é uma reafirmação do artigo 128, do Código Penal, garantindo às mulheres o efetivo exercício de um direito.
E há outros projetos que propõem a completa descriminalização do aborto.
Mas, diante do princípio absoluto do direito à vida, garantido pela Constituição e partilhado pelo Espiritismo, não se pode admitir qualquer relativização ou condicionamento deste direito.
Segundo O Livro dos Espíritos (Questão 358):
"Constitui crime a provocação do aborto, em qualquer período da gestação?
- Há crime sempre que transgredis a lei de Deus. Uma mãe, ou quem quer que seja, cometerá crime sempre ao tirar a vida a uma criança antes do seu nascimento, porque isso impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando."

A Vida da Mãe em Risco

No caso de risco de vida da mãe - único aborto aceito pela Doutrina Espírita - existem duas vidas em confronto e é necessário escolher entre o direito de dois sujeitos. Assim reza O Livro dos Espíritos (Questão 359):
"Dado o caso em que o nascimento da criança pusesse em perigo a vida da mãe dela, haverá crime em sacrificar-se a primeira para salvar a segunda?
- Preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe." (Entende-se que o ser referido seja o ser encarnado no mundo, após o nascimento).

O Estupro

No caso de estupro, quando a mulher não se sinta com estrutura psicológica para criar o filho, a Lei deveria facilitar e estimular a adoção da criança nascida, ao invés de promover a sua morte legal. Sobrepõe-se o direito à vida ao conforto psicológico da mãe.
O Espiritismo, considerando o lado transcendente das situações humanas, estimula a mãe a levar adiante a gravidez e até mesmo a criação daquele filho, superando o trauma do estupro, porque aquele Espírito reencarnante terá, possivelmente um compromisso passado com a genitora.

O Aborto Eugênico

Embora não regulamentado por Lei, o aborto eugênico (de feto portador de malformação congênita irreversível) também vem sendo praticado no Brasil, já abrindo caminho para a sua legalização. Também neste caso, não se poderia admitir infração ao direito à vida, sendo dever de todo cidadão, partidário deste princípio, opor-se a esta prática, apenas aceitável em sociedades impregnadas de filosofias eugênicas, tal como Esparta antiga ou a Alemanha nazista, mas incompatível com uma sociedade majoritariamente cristã.
O Espiritismo se manifesta especificamente sobre o assunto, alertando que o Espírito, antes de reencarnar, escolhe esta ou aquela prova (o nascimento em corpo defeituoso ou mesmo a morte logo após o parto), como oportunidade de aprendizado e resgate de erros cometidos no passado.

O Direito de escolha da Mulher

Invoca-se o direito da mulher sobre o seu próprio corpo como argumento para a descriminalização do aborto. Mas o corpo em questão não é mais o da mulher, visto que ela abriga, durante a gravidez um outro corpo, que não é de forma alguma uma extensão do seu. O seu direito à escolha precede o ato da concepção e se subordina ao direito absoluto à vida.
O Espiritismo, admitindo a presença de um Espírito reencarnante no nascituro, considera que a mulher não tem o direito de lhe negar o direito à vida.

Conclusão

É inadmissível que pequeníssima parcela da população brasileira, constituída por alguns intelectuais, políticos e profissionais dos meios de comunicação e embebida de princípios materialistas e relativistas, venha a exercer tamanha influência na legislação brasileira, em oposição à vontade e às concepções da maioria do povo e contrariando a própria Carta Magna de 1988. O direito à vida não pode ser relativizado, sob pena de caminharmos para a barbárie e para a quebra de todos os princípios que têm orientado a nossa cultura cristã. Em que pesem as pretensões daqueles que querem conduzir a opinião pública, desviando-se de suas verdadeiras aspirações, o povo brasileiro continua em sua maioria cristão (seja esse Cristianismo manifestado na forma católica, protestante, espírita ou outra), adepto da existência de um princípio espiritual no homem e portanto defensor da vida humana, como direito inalienável.
O nascituro não é uma máquina de carne que pode ser desligada de acordo com interesses circunstanciais, mas um ser humano com direito à proteção, no lugar mais sagrado e inviolável que a natureza criou: o ventre materno.
Manifesto aprovado na reunião do Conselho Federativo Nacional da
Federação Espírita Brasileira, nos dias 7, 8 e 9 de novembro de 98
Fonte:http://www.espirito.org.br/portal/artigos/diversos/aborto/manifesto-espirita.html