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segunda-feira, 19 de maio de 2014

Carta de Allan Kardec ao Príncipe G.

Autor: Allan Kardec

Vossa Alteza honrou-me dirigindo-me várias 
perguntas referentes ao Espiritismo; vou tentar 
respondê-las, tanto quanto o permita o estado 
dos conhecimentos atuais sobre a matéria, 
resumindo em poucas palavras o que o estudo e 
a observação nos ensinaram a esse respeito. 
Essas questões repousam sobre os princípios da 
própria ciência: para dar maior clareza à solução, 
é necessário ter esses princípios presentes no 
pensamento; permita-me, pois, tomar a coisa de 
um ponto mais alto, colocando como 
preliminares certas proposições fundamentais 
que, de resto, elas mesmas servirão de resposta 
a algumas de vossas perguntas.

Há, fora do mundo corporal visível, seres 
invisíveis que constituem o mundo dos Espíritos.

Os Espíritos não são seres à parte, mas as 
próprias almas daqueles que viveram na Terra ou 
em outras esferas, e que deixaram seus 
envoltórios materiais.

Os Espíritos apresentam todos os graus de 
desenvolvimento intelectual e moral. Há, por 
conseqüência, bons e maus, esclarecidos e 
ignorantes, levianos, mentirosos, velhacos, 
hipócritas, que procuram enganar e induzir ao 
mal, como os há muitos superiores em tudo, e 
que não procuram senão fazer o bem. Essa 
distinção é um ponto capital.

Os Espíritos nos cercam sem cessar, com o nosso 
desconhecimento, dirigem os nossos 
pensamentos e as nossas ações, e por aí
influem sobre os acontecimentos e os destinos 
da Humanidade.

Os Espíritos, freqüentemente, atestam sua 
presença por efeitos materiais. Esses efeitos 
nada têm de sobrenatural; não nos parecem tal 
senão porque repousam sobre bases fora das leis 
conhecidas da matéria. Uma vez conhecidas 
essas bases, o efeito entra na categoria dos 
fenômenos naturais; é assim que os Espíritos 
podem agir sobre os corpos inertes e fazê-los 
mover sem o concurso de nossos agentes 
exteriores. Negar a existência de agentes 
desconhecidos, unicamente porque não são 
compreendidos, seria colocar limites ao poder de 
Deus, e crer que a Natureza nos disse sua última 
palavra.

Todo efeito tem uma causa; ninguém o contesta. 
É, pois, ilógico negar a causa unicamente porque 
seja desconhecida.

Se todo efeito tem uma causa, todo efeito 
inteligente deve ter uma causa inteligente. 
Quando se vê o braço do telégrafo fazer sinais 
que respondem a um pensamento, disso se 
conclui, não que esses braços sejam inteligentes, 
mas que uma inteligência fá-los moverem-se. 
Ocorre o mesmo com os fenômenos espíritas. Se 
a inteligência que os produz não é a nossa, é 
evidente que ela está fora de nós.

Nos fenômenos das ciências naturais, atua-se 
sobre a matéria inerte, que se manipula à 
vontade; nos fenômenos espíritas age-se sobre 
inteligências que têm seu livre arbítrio, e não 
estão submetidas à nossa vontade. Há, pois, 
entre os fenômenos usuais e os fenômenos 
espíritas uma diferença radical quanto ao 
princípio: por isso, a ciência vulgar é 
incompetente para julgá-los.

O Espírito encarnado tem dois envoltórios, um 
material que é o corpo, o outro semi-material e 
indestrutível que é o perispírito. Deixando o 
primeiro, conserva o segundo que constitui para 
ele uma espécie de corpo, mas cujas 
propriedades são essencialmente diferentes. Em 
seu estado normal, é invisível para nós, mas 
pode tornar-se momentaneamente visível e 
mesmo tangível: tal é a causa do fenômeno das 
aparições.

Os Espíritos não são, pois, seres abstratos, 
indefinidos, mas seres reais e limitados, tendo 
sua própria existência, que pensam e agem em 
virtude de seu livre arbítrio. Estão por toda parte, 
ao redor de nós; povoam os espaços e se 
transportam com a rapidez do pensamento.

Os homens podem entrar em relação com os 
Espíritos e deles receberem comunicações diretas 
pela escrita, pela palavra e por outros meios. Os 
Espíritos, estando ao nosso lado e podendo 
virem ao nosso chamado, pode-se, por certos 
intermediários, estabelecer com eles 
comunicações seguidas, como um cego pode 
fazê-lo com as pessoas que ele não vê.

Certas pessoas são dotadas, mais do que outras, 
de uma aptidão especial para transmitirem as 
comunicações dos Espíritos: são os médiuns. O 
papel do médium é o de um intérprete; é um 
instrumento do qual se servem os Espíritos: esse 
instrumento pode ser mais ou menos perfeito, e 
daí as comunicações mais ou menos fáceis.

Os fenômenos espíritas são de duas ordens: as 
manifestações físicas e materiais, e as 
comunicações inteligentes. Os efeitos físicos são 
produzidos por Espíritos inferiores; os Espíritos 
elevados não se ocupam mais dessas coisas 
quanto nossos sábios não se ocupam em 
fazerem grandes esforços: seu papel é de instruir 
pelo raciocínio.

As comunicações podem emanar de Espíritos 
inferiores, como de Espíritos superiores. 
Reconhecem-se os Espíritos, como os homens, 
pela sua linguagem: a dos Espíritos superiores é 
sempre séria, digna, nobre e marcada de 
benevolência; toda expressão trivial ou 
inconveniente, todo pensamento que choque a 
razão ou o bom senso, que denote orgulho, 
acrimônia ou malevolência, necessariamente, 
emana de um Espírito inferior.

Os espíritos elevados não ensinam senão coisas 
boas; sua moral é a do Evangelho, não pregam 
senão a união e a caridade, e jamais enganam. 
Os Espíritos inferiores dizem absurdos, mentiras, 
e, freqüentemente, grosserias mesmo.

A bondade de um médium não consiste somente 
na facilidade das comunicações, mas, sobretudo, 
na natureza das comunicações que recebe. Um 
bom médium é aquele que simpatiza com os 
bons Espíritos e não recebe senão boas 
comunicações.

Todos temos um Espírito familiar que se liga a 
nós desde o nosso nascimento, nos guia, nos 
aconselha e nos protege; esse Espírito é sempre 
bom.

Além do Espírito familiar, há Espíritos que são 
atraídos para nós por sua simpatia por nossas 
qualidades e nossos defeitos, ou por antigas 
afeições terrestres. Donde se segue que, em toda 
reunião, há uma multidão de Espíritos mais ou 
menos bons, segundo a natureza do meio.

Podem os Espíritos revelar o futuro?

Os Espíritos não conhecem o futuro senão em 
razão de sua elevação. Os que são inferiores não 
conhecem mesmo o seu, por mais forte razão o 
dos outros. Os Espíritos superiores o conhecem, 
mas não lhes é sempre permitido revelá-lo. Em 
princípio, e por um desígnio muito sábio da 
Providência, o futuro deve nos ser ocultado; se o 
conhecêssemos, nosso livre arbítrio seria por 
isso entravado. A certeza do sucesso nos tiraria o 
desejo de nada fazer, porque não veríamos a 
necessidade de nos dar ao trabalho; a certeza de 
uma infelicidade nos desencorajaria. Todavia, há 
casos em que o conhecimento do futuro pode ser 
útil, mas deles jamais podemos ser juizes: os 
Espíritos no-los revelam quando crêem útil e têm 
a permissão de Deus; fazem-no 
espontaneamente e não ao nosso pedido. E 
preciso esperar, com confiança a oportunidade, e 
sobretudo não insistir em caso de recusa, de 
outro modo se arrisca a relacionar-se com 
Espíritos levianos que se divertem às nossas 
custas.

Podem os Espíritos nos guiar, por conselhos 
diretos, nas coisas da vida?

Sim, eles o podem e o fazem voluntariamente. 
Esses conselhos nos chegam diariamente pelos 
pensamentos que nos sugerem. Freqüentemente, 
fazemos coisas das quais nos atribuímos o 
mérito, e que não são, na realidade, senão o 
resultado de uma inspiração que nos foi 
transmitida. Ora, como estamos cercados de 
Espíritos que nos solicitam, uns num sentido, os 
outros no outro, temos sempre o nosso livre 
arbítrio para nos guiar na escolha, feliz para nós 
quando damos a preferência ao nosso bom 
gênio.

Além desses conselhos ocultos, pode-se tê-los 
diretos por um médium; mas é aqui o caso de se 
lembrar dos princípios fundamentais que 
emitimos a toda hora. A primeira coisa a 
considerar é a qualidade do médium, senão o for 
por si mesmo. Médium que não tem senão boas 
comunicações, que, pelas suas qualidades 
pessoais não simpatiza senão com os bons 
Espíritos, é um ser precioso do qual podem-se 
esperar grandes coisas, se todavia for secundado 
pela pureza de suas próprias instruções e se 
tomadas convenientemente: digo mais, é um 
instrumento providencial.

O segundo ponto, que não é menos importante, 
consiste na natureza dos Espíritos aos quais se 
dirigem, e não é preciso crer que o primeiro que 
chegue possa nos guiar utilmente. Quem não 
visse nas comunicações espíritas senão um meio 
de adivinhação, e em um médium uma espécie 
de ledor de sorte, se enganaria estranhamente. É 
preciso considerar que temos, no mundo dos 
Espíritos, amigos que se interessam por nós, 
mais sinceros e mais devotados do que aqueles 
que tomam esse título na Terra, e que não têm 
nenhum interesse em nos bajular e em nos 
enganar. Além do nosso Espírito protetor, são 
parentes ou pessoas que se nos afeiçoaram em 
sua vida, ou Espíritos que nos querem o bem por 
simpatia. Aqueles vêm voluntariamente quando 
são chamados, e vêm mesmo sem que sejam 
chamados; temo-los, freqüentemente, ao nosso 
lado sem disso desconfiar. São aqueles aos quais 
pode-se pedir conselhos pela via direta dos 
médiuns, e que os dão mesmo espontaneamente 
sem que lhes peça. Fazem-no sobretudo n a 
intimidade, no silêncio, e então quando nenhuma 
influência venha perturbá-los: aliás, são muito 
prudentes, e não se tem a temer da sua parte 
uma indiscrição imprópria: eles se calam quando 
há ouvidos demais. Fazem-no, ainda com mais 
bom grado, quando estão em comunicação 
freqüente conosco; como eles não dizem as 
coisas senão com o propósito e segundo a 
oportunidade, é preciso esperar a sua boa 
vontade e não crer que, à primeira vista, vão 
satisfazer a todos os nossos pedidos; querem 
nos provar com isso que não estão às nossas 
ordens.

A natureza das respostas depende muito do 
modo como se colocam as perguntas; é preciso 
aprender a conversar com os Espíritos como se 
aprende a conversar com os homens: em todas 
as coisas é preciso a experiência. Por outro lado, 
o hábito faz com que os Espíritos se identifiquem 
conosco e com o médium, os fluidos se 
combinam e as comunicações são mais fáceis; 
então se estabelece, entre eles e nós, verdadeiras 
conversações familiares; o que não dizem num 
dia, dizem-no em outro; eles se habituam à 
nossa maneira de ser, como nós à sua: fica-se, 
reciprocamente, mais cômodo. Quanto à 
ingerência de maus Espíritos e de Espíritos 
enganadores, o que é o grande escolho, a 
experiência ensina a combatê-los, e pode-se 
sempre evitá-los. Se não se lhes expuser, não 
vêm mais onde sabem perder seu tempo.

Qual pode ser a utilidade da propagação das 
idéias espíritas?

O Espiritismo, sendo a prova palpável, evidente 
da existência, da individualidade e da 
imortalidade da alma, é a destruição do 
Materialismo. Essa negação de toda religião, essa 
praga de toda sociedade. O número dos 
materialistas que foram conduzidos a idéias mais 
sadias é considerável e aumenta todos os dias: 
só isso seria um benefício social. Ele não prova 
somente a existência da alma e sua imortalidade; 
mostra o estado feliz ou infeliz delas segundo os 
méritos desta vida. As penas e as recompensas 
futuras não são mais uma teoria, são um fato 
patente que se tem sob os olhos. Ora, como não 
há religião possível sem a crença em Deus, na 
imortalidade da alma, nas penas e nas 
recompensas futuras, se o Espiritismo conduz a 
essas crenças aqueles em que estavam apagadas, 
disso resulta que é o mais poderoso auxiliar das 
idéias religiosas: dá a religião àqueles que não a 
têm; fortifica-a naqueles em que ela é vacilante; 
consola pela certeza do futuro, faz aceitar com 
paciência e resig nação as tribulações desta vida, 
e afasta do pensamento do suicídio, pensamento 
que se repele naturalmente quando se lhe vê as 
conseqüências: eis porque aqueles que 
penetraram esses mistérios estão felizes com 
isso; é para eles uma luz que dissipa as trevas e 
as angústias da dúvida.

Se considerarmos agora a moral ensinada pelos 
Espíritos superiores, ela é toda evangélica, é 
dizer tudo: prega a caridade cristã em toda a sua 
sublimidade; faz mais, mostra a necessidade 
para a felicidade presente e futura, porque as 
conseqüências do bem e do mal que fizermos 
estão ali diante dos nossos olhos. Conduzindo os 
homens aos sentimentos de seus deveres 
recíprocos, o Espiritismo neutraliza o efeito das 
doutrinas subversivas da ordem social.

Essas crenças não podem ser um perigo para a 
razão?



Todas as ciências não forneceram seu 
contingente às casas de alienados? É preciso 
condená-las por isso? As crenças religiosas não 
estão ali largamente representadas? Seria justo, 
por isso, proscrever a religião? Conhecem-se 
todos os loucos que o medo do diabo produziu? 
Todas as grandes preocupações intelectuais 
levam à exaltação, e podem reagir 
lastimavelmente sobre um cérebro fraco; teria 
fundamento ver-se no Espiritismo um perigo 
especial a esse respeito, se ele fosse a causa 
única, ou mesmo preponderante, dos casos de 
loucura. Faz-se grande barulho de dois ou três 
casos aos quais não se daria nenhuma atenção 
em outra circunstância; não se levam em conta, 
ainda, as causas predisponentes anteriores. Eu 
poderia citar outras nas quais as idéias espíritas, 
bem compreendidas, detiveram o 
desenvolvimento da loucura. Em resumo, o 
Espiritismo não oferece, sob esse aspecto, mais 
perigo que as mil e uma causas que a produzem 
diariamente; digo mais, que ele as oferece muito 
menos, naq uilo que ele carrega em si mesmo 
seu corretivo, e que pode, pela direção que dá às 
idéias, pela calma que proporciona ao espírito 
daqueles que o compreende, neutralizar o efeito 
de causas estranhas. O desespero é uma dessas 
causas; ora, o Espiritismo, fazendo-nos encarar 
as coisas mais lamentáveis com sangue frio e 
resignação, nos dá a força de suportá-las com 
coragem e resignação, e atenua os funestos 
efeitos do desespero.

As crenças espíritas não são a consagração das 
idéias supersticiosas da Antigüidade e da Idade 
Média, e não podem recomendá-las?

As pessoas sem religião não taxam de 
superstição a maioria das crenças religiosas? 
Uma idéia não é supersticiosa senão porque ela é 
falsa; cessa de sê-lo se se torna uma verdade. 
Está provado que, no fundo da maioria das 
superstições, há uma verdade ampliada e 
desnaturada pela imaginação. Ora, tirar a essas 
idéias todo seu aparelho fantástico, e não deixar 
senão a realidade, é destruir a superstição: tal é 
o efeito da ciência espírita, que coloca a nu o que 
há de verdade ou de falso nas crenças populares. 
Por muito tempo, as aparições foram vistas como 
uma crença supersticiosa; hoje, que são um fato 
provado, e, mais que isso, perfeitamente 
explicado, elas entram no domínio dos 
fenômenos naturais. Seria inútil condená-las, 
não as impediria de se produzirem; mas aqueles 
que delas tomam conhecimento e as 
compreendem, não somente não se amedrontam, 
mas com elas ficam satisfeitos, e é a tal ponto 
que aqueles que não as têm desejam tê-las. Os 
fenômenos incompreendidos deixam o camp o 
livre à imaginação, são a fonte de uma multidão 
de idéias acessórias, absurdas, que degeneram 
em superstição. Mostrai a realidade, explicai a 
causa, e a imaginação se detém no limite do 
possível; o maravilhoso, o absurdo e o impossível 
desaparecem, e com eles a superstição; tais são, 
entre outras, as práticas cabalísticas, a virtude 
dos sinais e das palavras mágicas, as fórmulas 
sacramentais, os amuletos, os dias nefastos, as 
horas diabólicas, e tantas outras coisas das quais 
o Espiritismo, bem compreendido, demonstra o 
ridículo.

Tais são, Príncipe, as respostas que acreditei 
dever fazer às perguntas que me haveis dado a 
honra em me endereçar, feliz se elas podem 
corroborar as idéias que Vossa Alteza já possui 
sobre essas matérias, e vos levar a aprofundar 
uma questão de tão alto interesse; mais feliz 
ainda se meu concurso ulterior puder ser para 
vós de alguma utilidade.

Com o mais profundo respeito, sou, de Vossa 
Alteza, o muito humilde e muito obediente 
servidor,

Allan Kardec
Fonte:http://www.oespiritismo.com.br/textos/ver.php?id1=378

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