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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Considerações de Emmanuel sobre Paulo de Tarso

Autor: Emmanuel

CONSIDERAÇÕES DE EMMANUEL SOBRE PAULO DE TARSO

Não são poucos os trabalhos que correm mundo, re­lativamente à tarefa gloriosa do Apóstolo dos gentios. É justo, pois, esperarmos a interrogativa: — Por que mais um livro sobre Paulo de Tarso? Homenagem ao grande trabalhador do Evangelho ou informações mais detalhadas de sua vida?

Quanto à primeira hipótese, somos dos primeiros a reconhecer que o convertido de Damasco não necessita de nossas mesquinhas homenagens; e quanto à segunda, responderemos afirmativamente para atingir os fins a que nos pro pomos, transferindo ao papel humano, com os recursos possíveis, alguma coisa das tradições do pla­no espiritual acerca dos trabalhos confiados ao grande amigo dos gentios.

Nosso escopo essencial não poderia ser apenas reme­morar passagens sublimes dos tempos apostólicos, e sim apresentar, antes de tudo, a figura do cooperador fiel, na sua legitima feição de homem transformado por Jesus-Cristo e atento ao divino ministério. Esclarecemos, ainda, que não é nosso propósito levantar apenas uma biografia romanceada. O mundo está repleto dessas fichas educa­tivas, com referência aos seus vultos mais notáveis. Nosso melhor e mais sincero desejo é recordar as lutas acerbas e os ásperos testemunhos de um coração extraordinário, que se levantou das lutas humanas para seguir os passos do Mestre, num esforço incessante.

As igrejas amornecidas da atualidade e os falsos de­sejos dos crentes, nos diversos setores do Cristianismo, justificam as nossas intenções.

Em toda parte há tendências à ociosidade do espí­rito e manifestações de menor esforço. Muitos discípulos disputam as prerrogativas de Estado, enquanto outros, distanciados voluntariamente do trabalho justo, suplicam a proteção sobrenatural do Céu. Templos e devotos entre­gam-se, gostosamente, às situações acomodatícias, prefe­rindo as dominações e regalos de ordem material.

Observando esse panorama sentimental é útil recor­darmos a figura inesquecível do Apóstolo generoso.

Muitos comentaram a vida de Paulo; mas, quando não lhe atribuíram certos títulos de favor, gratuitos do Céu, apresentaram-no como um fanático de coração res­sequido. Para uns, ele foi um santo por predestinação, a quem Jesus apareceu, numa operação mecânica da graça; para outros, foi um espírito arbitrário, absorvente e rís­pido, inclinado a combater os companheiros, com vaida­de quase cruel. Não nos deteremos nessa posição extremista. Queremos recordar que Paulo recebeu a dádiva santa da visão gloriosa do Mestre, às portas de Damasco, mas não podemos esquecer a declaração de Jesus relativa ao sofrimento que o aguardava, por amor ao seu nome.

Certo é que o inolvidável tecelão trazia o seu ministé­rio divino; mas, quem estará no mundo sem um ministério de Deus? Muita gente dirá que desconhece a própria tarefa, que é insciente a tal respeito, mas nós poderemos responder que, além da ignorância, há desatenção e muito capricho pernicioso. Os mais exigentes advertirão que Paulo recebeu um apelo direto; mas, na verdade, todos os homens menos rudes têm a sua convocação pes­soal ao serviço do Cristo. As formas podem variar, mas a essência ao apelo é sempre a mesma. O convite ao ministério chega, ás vezes, de maneira sutil, inesperada­mente; a maioria, porém, resiste ao chamado generoso do Senhor. Ora, Jesus não é um mestre de violências e se a figura de Paulo avulta muito mais aos nossos olhos, é que ele ouviu, negou-se a si mesmo, arrependeu-se, tomou a cruz e seguiu o Cristo até ao fim de suas tarefas materiais. Entre perseguições, enfermidades, apodos, zombarias, desilusões, deserções, pedradas, açoites e encarcerament os, Paulo de Tarso foi um homem intrépido e sincero, caminhando entre as sombras do mundo, ao encontro do Mestre que se fizera ouvir nas encruzilhadas da

sua vida. Foi muito mais que um predestinado, foi um realizador que trabalhou diariamente para a luz.

O Mestre chama-o, da sua esfera de claridadeS imor­tais. Paulo tateia na treva das experiências humanas e responde: — Senhor, que queres que eu faça?

Entre ele e Jesus havia um abismo, que o Apóstolo soube transpor em decênios de luta redentora e cons­tante.

Demonstrá-lo, para o exame do quanto nos compete em trabalhO próprio, a fim de Ir ao encontro de Jesus, é o nosso objetivo.

Outra finalidade deste esforço humilde é reconhecer que o Apóstolo não poderia chegar a essa possibilidade, em ação isolada no mundo.

Sem Estevão, não teríamos Paulo de Tarso. O gran­de mártir do Cristianismo nascente alcançou influência muito mais vasta na experiência paulina, do que podería­mos imaginar tão-só pelos textos conhecidos nos estudos terrestres. A vida de ambos está entrelaçada com miste­riosa beleza. A contribuição de Estevão e de outras per­sonagens desta história real vem confirmar a necessida­de e a universalidade da lei de cooperação. E, para ve­rificar a amplitude desse conceito, recordemos que Jesus, cuja misericórdia e poder abrangiam tudo, procurou a companhia de doze auxiliares, a fins de empreender a re­novação do mundo.

Aliás, sem cooperação, não poderia existir amor; e o amor é a força de Deus, que equilibra o Universo.

Desde já, vejo os críticos consultando textos e com­binando versículos para trazerem á tona os erros do nosso tentame singelo. Aos bem-intencionados agradecemos sin­ceramente, por conhecer a nossa expressão de criatura falível, declarando que este livro modesto foi grafado por um Espírito para os que vivam em espírito; e ao pedan­tismo dogmático, ou literário, de todos os tempos, recorremos ao próprio Evangelho para repetir que, se a letra mata, o espírito vivifica.

Oferecendo, pois, este humilde trabalho aos nossos irmãos da Terra, formulamos votos para que o exemplo do Grande Convertido se faça mais claro em nossos cora­ções, a fim de que cada discípulo possa entender quanto lhe compete trabalhar e sofrer, por amor a Jesus-Cristo.


Pedro Leopoldo, 8 de julho de 1941.


Do livro Paulo e Estevão. Pelo Espírito Emmanuel.

Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

Fonte:http://www.oespiritismo.com.br/textos/ver.php?id1=311

EVANGELHO NO LAR

Fazendo uso das facilidades que os meios de comunicação nos oferecem, estamos presentes, nesta página, para falar do Evangelho: a mensagem que venceu o tempo conservando-se tão atual como no tempo em que Jesus se manifestou.

Depois que Jesus proferiu o Sermão da Montanha, Ele dirigiu-se aos apóstolos dizendo-lhes: “Ide pelo Mundo e pregai a minha palavra a toda criatura”, e ainda em outra oportunidade, o Mestre, para fortalecer o ânimo daqueles que ouviam, assegurou que sempre estaria presente, até o fim, até a consumação dos séculos.

A promessa feita pelo Mestre de que estaria sempre conosco confirma-se plenamente, pois, é fato inconteste que Ele continua nos envolvendo e orientando. Mas é necessário abrir as portas do coração para que a terapia do amor, pregada por Jesus, possa penetrar o nosso íntimo.

A civilização atual, um tanto aturdida pela rapidez tecnológica e às vezes esquecida da conduta moral, está necessitando, urgentemente, de um acompanhamento seguro que norteie sua conduta. Achamos que o momento é oportuno para relembrar os encontros ocorridos com Jesus e os apóstolos. Nessas ocasiões, Jesus falava com bondade orientando as consciências, ainda incertas, no campo das verdades maiores.
Muitas vezes, na casa de Simão Pedro, O Mestre falou sobre as Escrituras, esclarecendo os familiares do apóstolo e todos que ali se encontravam. Sequiosos, todos lhe ouviam a palavra edificante e Jesus os convidava ao diálogo amoroso, despertando-lhes o desejo de aprender.

A família humana ainda se conserva carente de conhecimento espiritual. Vamos então, convidar Jesus para que Ele adentre o nosso lar, assim como aconteceu na casa de Simão Pedro. Para que isto aconteça não existe fórmula melhor do que realizar O Evangelho no Lar. Em muitos lares as famílias já realizam este estudo, recolhendo os benefícios do esclarecimento que a luz do Evangelho oferece por meio da reflexão em família.

O Evangelho no Lar é o reviver dos encontros de Jesus, que considerava o berço doméstico como verdadeira escola de almas. Escolhendo um dia na semana, com horário determinado, a família se reunirá de forma natural e simples, sem necessidade de qualquer aparato, mas com o coração aberto para penetrar os ensinamentos do Mestre, despertando a semente Divina que há no imo de cada um.
A Cada semana apresentaremos uma família que abrirá as portas do seu lar, permitindo-nos acompanhar o seu momento de estudo por meio do Evangelho no Lar.

Disse Jesus: "Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ai estou no meio deles". (Mateus 18:22)

O Evangelho no Lar possibilita atender as orientações de Jesus, porquanto se destina ao estudo dos Evangelhos, a fim de melhor compreender os seus ensinos e praticá-los.

Permite um momento de comunhão de idéias e sentimentos entre os familiares e Jesus, objetivando a conquista da harmonia da família.

Permite ainda a formação de um ambiente de paz, propício à elevação espiritual.

Durante O Evangelho no Lar, deve-se estudá-lo metodicamente. Para tal aconselha-se que esse estudo seja feito através da obra O Evangelho Segundo o Espiritismo, porque explica claramente inúmeras passagens evangélicas.

Por este motivo, nessas reuniões, o Evangelho deve ser lido e estudado de forma e seqüente.

Desaconselha-se a sua leitura abrindo O Evangelho ao acaso, evitando-se assim, criar crendices supersticiosas, de que procedendo, os Espíritos abrem na página apropriada para quem o abre, ou para os presentes, pois sabemos que em todas as demais páginas, nos advertem e nos orientam com toda a objetividade.

Lembremo-nos de que O Evangelho no Lar visa possibilitar-nos maiores conquistas morais e espirituais, com ele conseguimos mais facilmente a nossa reforma íntima, o que facilita expurgar as crendices e as superstições que ainda nos acompanham e que tanto nos têm prejudicado.

O Evangelho no Lar deve revestir-se da maior simplicidade, sem uso de qualquer forma exterior, o que daria um cunho de liturgia e de ritual, incompatíveis com o ensino de Jesus e da Doutrina Espírita.

Para a reunião deve-se obter o consenso dos familiares (mas o Evangelho no Lar também pode ser praticado por apenas uma pessoa, caso os familiares não queiram participar), convidando-os a estabelecer para tal um dia da semana, qualquer dia, mas sempre o mesmo. Também se escolherá uma hora, para que estejam presentes, evitando-se assim assumir outro compromisso para aquele dia e hora.
A reunião se processará da seguinte forma:

1- Prece inicial: simples, breve, objetiva, de maneira que o coração fale mais alto do que as palavras.

2- Leitura de pequeno trecho do Evangelho: Lido sempre de forma seqüente e metódica.

3- Comentar o trecho lido: comentar não é discutir, e sim expor o pensamento de cada um, da maneira como entendeu. Todos devem participar.

4- Vibrações: Com o recolhimento interior, emitir pensamentos e sentimentos elevados em favor dos que sofrem e para harmonização dos lares desajustados. Vibrar para o próprio lar.

5- Prece e encerramento: as mesmas recomendações feitas para a prece inicial.

As preces, a leitura e as vibrações podem ser feitas em rodízio.

O Evangelho no Lar não é uma sessão mediúnica ou de cura. Estas devem ocorrer nas Casas Espíritas.

O Evangelho no Lar é despojado de qualquer liturgia ou simbologia, por isso desaconselha-se o uso de velas, flores, toalhas brancas, defumadores, cujo uso passa a constituir uma cerimônia religiosa, um culto ou um ritual incompatíveis com a pureza do Cristianismo e da Doutrina Espírita.

O Evangelho no Lar é, na verdade, uma Escola de Jesus em que se aprende a Amar o próximo como a nós mesmos, para amar a Deus sobre todas as coisas.

O dilema entre o perdão e a vingança

A luta entre a sabedoria que leva à reconciliação e o desejo de retaliar é mais antiga que a civilização e continua sendo travada nos dias atuais. A lição da história é que foi através do perdão que a humanidade conseguiu interromper as espirais de violência provocadas pela vingança
Thomaz Favaro
"Enquanto dormimos / a dor que não se dissipa / cai gota a gota sobre nosso coração / até que, em meio ao nosso desespero / e contra nossa vontade / apenas pela graça divina / vem a sabedoria." Esses versos, escritos há 25 séculos pelo poeta grego Ésquilo, formam a mais antiga e, para muitos, a mais bela conclamação ao perdão jamais colocada em pedra, papiro, papel ou tela. Bob Kennedy recorreu a ela na tarde do dia 4 de abril de 1968 para, durante um comício, consolar a multidão revoltada com a chegada da notícia do assassinato do líder pacifista Martin Luther King. Dois meses depois, o próprio Bob seria morto a tiros. Em seu túmulo no Cemitério Nacional de Arlington foram gravados esses mesmos versos de Ésquilo, uma passagem da peça Agamenon. A luta entre a sabedoria que leva ao perdão e o desejo de vingança, porém, é mais antiga do que a civilização e é provável que sobreviva a ela, pelos exemplos a que assistimos hoje por toda parte. "Tinha contas a ajustar com ele", disse o judoca português Pedro Dias, que buscou forças não se sabe onde para derrotar na Olimpíada de Pequim o favorito lutador brasileiro João Derly. Dias explicou que o desejo de vingança foi sua motivação. Derly roubara-lhe uma namorada no passado.
"Ele foi humilhado, humilhado por mim", comemorou Dias. O sentimento do judoca é da mesma natureza do que acometeu a atriz Jennifer Aniston quando descobriu que Brad Pitt a traía com Angelina Jolie. Depois da separação, Jennifer esvaziou o guarda-roupa de Brad e doou todas as peças a uma instituição de caridade – a versão politicamente correta de jogar a mala dele no meio da rua.
Parece fazer parte do mecanismo instintivo de defesa dos seres humanos responder a um tapa com outro tapa. Os bebês fazem isso com aquele jeito inocente e angelical que torna doloroso chamar a reação de vingança. Dar a outra face é a exceção pregada, com sucesso duvidoso, há mais de 2000 anos pelo cristianismo. Antes de Cristo, as religiões não apenas amparavam como incentivavam a vingança desproporcional ao agravo. O Velho Testamento é repleto de passagens "olho por olho". Nenhuma tão constrangedora quanto aquela em que o profeta Eliseu é chamado de "careca" por um grupo de crianças e, em resposta, manda dois ursos sair da floresta e despedaçar 42 criancinhas. Deve ser o único caso registrado em que uma peruca teria evitado uma carnificina. Como instituição, a religião é má conselheira nesses casos. As guerras religiosas são sempre as mais inexplicáveis, duradouras e cruéis da história humana. Para entender a origem do desejo de vingança e aprender a domá-lo, o melhor a fazer é trafegar por fora da religião.
Voltando ao caso do judoca e da atriz, bem mais perto de nós do que os ursos famintos das Escrituras, o que se observa é apenas uma diferença de estilo. O homem usou da força bruta para subjugar o rival diante de uma enorme platéia. A mulher recorreu a método mais sutil, na privacidade do lar, mas tendo o cuidado de informar as revistas de fofoca de forma a tornar público o lance do traidor.
É voz corrente que as mulheres são mais vingativas que os homens. Há controvérsias. Mas, sem dúvida, de Teodora – esposa do imperador romano do Oriente Justiniano, que convidou a população para um espetáculo no estádio e mandou degolar 30000 pessoas por insurreição – a Jennifer Aniston, a mulher é mais espalhafatosa em sua vingança. O psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, do Hospital das Clínicas de São Paulo, não vê nisso uma especial crueldade feminina, mas apenas uma característica inata delas.
Diz ele: "Tanto no afeto quanto na vingança, a mulher se expõe mais". Quando os casamentos infelizes eram indissolúveis também pela lei dos homens, tanto o marido quanto a mulher tendiam a se amargurar silenciosamente, vivendo separados sob o mesmo teto e evitando demonstrações públicas do fracasso do relacionamento. Hoje é tudo mais fácil do ponto de vista econômico e jurídico. Culturalmente, nem se fala. Os casamentos não costumam durar o tempo suficiente para que as mágoas acumuladas transbordem para o prato frio da vingança. Ainda assim, o divórcio tornou-se uma das poucas situações no mundo moderno nas quais se pode realmente machucar o outro sem quebrar a lei. As ameaças de tirar a custódia dos filhos, a disputa pela posse dos bens e a roupa suja lavada em público são perfeitamente toleradas durante o processo judicial do divórcio.
Os entendedores da mente humana enxergam em boa parte dos episódios que chamamos de vingança apenas explosões momentâneas de ódio e reflexos de defesa. Vingança mesmo começa pelo coração, é tramada no cérebro, guardada na memória, e sua execução é cuidadosamente lapidada pelo inconsciente. "Enquanto dormimos / a dor que não se dissipa / cai gota a gota sobre nosso coração..." Se não nos socorre a sabedoria, a vingança encontra seu caminho. Por que ela não se dissipa, não desaparece lentamente como o conhecimento acumulado ou o nome daquela pessoa importante com quem cruzamos no passado e que seria vital lembrar agora? Os psicólogos colocaram de pé duas teorias principais sobre o poder de permanência do desejo de vingança. A vingança é um impulso que se desenvolve basicamente em quatro etapas. A pessoa entende que sofreu um dano e conclui que este foi causado por outra pessoa. Em seguida acredita que esse dano foi injusto. E, por último, sente o desejo de retaliar. A questão que se coloca a partir desse ponto é a seguinte: por que o homem carrega dentro de si o espírito vingativo? Duas teorias estão entre as mais prováveis. A primeira é que o desejo de vingança é um tipo de toxina existente na mente apenas das pessoas rancorosas. Isso pode ser atribuído a perturbações mentais ou morais, a pais ausentes na infância, a fatores culturais. A outra possibilidade é que se trata de um sentimento tão natural no ser humano quanto o amor, o ódio e o medo. Um século de pesquisas sociais e biológicas deu aos cientistas a certeza de que a segunda teoria é a mais sólida. O desejo de vingança é uma parte perfeitamente normal da natureza humana e sua supressão pode ser apenas um daqueles recalques que a vida moderna em sociedade nos incute. O psicólogo americano Michael E. McCullough, da Universidade de Miami e autor de Além da Vingança – A Evolução do Instinto do Perdão, enxerga a questão pela lente da biologia. Disse ele a VEJA: "Todo ser humano nasce biologicamente equipado para retaliar quando se ressente de alguma ofensa ou agressão".
O biólogo Keith Jensen, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva de Leipzig, na Alemanha, acredita que as raízes da vingança precedem o surgimento do Homo sapiens. Diz ele: "A existência de desejo de vingança entre os chimpanzés sugere que, nos seres humanos, esse sentimento tem sua origem em um ancestral comum, que viveu entre 5 milhões e 7 milhões de anos atrás". Colocar a culpa no macaco não explica tudo, mas ajuda a lembrar que, por mais anjo decaído que seja, o homem tem seu lugar cativo na escala zoológica. As emoções humanas só podem ser entendidas quando se leva em conta que, tanto quanto nossos narizes e joelhos, elas foram moldadas por forças evolutivas no decorrer de milhões de anos. O medo, por exemplo, é uma emoção útil evolutivamente. Ele foi vital para a preservação da espécie, por nos manter atentos às ameaças potenciais e para evitar que corrêssemos riscos. A vingança, especulam os antropólogos, deve ter sido um poderoso elemento de dissuasão, inibindo o agressor e fazendo-o pensar duas vezes antes de atacar de novo. Sentir, planejar e executar um ato de vingança pode ter também tido o papel de melhorar o sentido de cooperação dentro de um grupo de hominídeos.
Em uma visão mais requintada, a vingança, quando voltada para dentro do grupo, transforma-se em punição. Ela é mais cerebral, controlada, e cumpre uma função bem mais específica no processo evolutivo. É dessa vingança que a deusa grega Nêmesis era encarregada. Narciso está hipnotizado pela própria beleza e não quer mais nada com as ninfas desejosas, colocando em perigo a espécie por falta de herdeiros? Nêmesis vai obrigá-lo a passar o resto da vida mirando o próprio rosto nas águas do lago. A tragédiaOrestéia, também de Ésquilo, é a representação, válida ainda hoje, de que a vingança feita pela Justiça, a punição, é consumada pelos homens, mas sua origem é divina. No final da trilogia, a deusa Atena se encarrega do julgamento de Orestes, que matou a própria mãe para vingar a morte do pai, numa cadeia de retaliações que remontava a gerações. As Erínias (fúrias, na tradição romana), divindades vingadoras que o perseguem pelo matricídio, encarregam-se da acusação. Orestes defende-se com a ajuda do deus Apolo. Após o julgamento, Atena inocenta-o – com o voto de Minerva, nome pelo qual ela é conhecida na tradição romana. As divindades vingadoras recebem, então, o nome de Eumênides ("deusas veneráveis") e passam a habitar a pólis grega. Esse momento é interpretado como a institucionalização da vingança, que deixa de ser um direito privado para se tornar público, decidido por um tribunal. A moral da história? Quando não há punição dos que cometem abusos e excessos, basta apenas um egoísta para arruinar a cooperação no grupo e diminuir suas chances de sobrevivência. Isso valia para os macacos, valeu para os hominídeos e vale para qualquer grupo humano hoje – seja uma empresa, seja uma escola, seja um pelotão de fuzileiros navais.
Longe de ser um anacronismo, "a herança evolutiva é rica em valores bastante úteis ao homem moderno", opina o filósofo americano Jeffrie Murphy, autor do livro Acertando as Contas: o Perdão e Seus Limites. Que qualidades podem existir no ressentimento? Murphy sugere três: auto-respeito, autodefesa e respeito pela ordem moral. "A pessoa que nunca se ressente, seja de qual for a ofensa, pode ser um santo. Mas a falta de ressentimentos pode também revelar uma personalidade servil e sem respeito por seus direitos e sua condição de indivíduo livre e moralmente respeitável." Aqui se chega ao nó da questão. O desejo de vingança constitui uma parte da natureza humana. Ajuda a estabelecer parâmetros morais no dia-a-dia. Ao mesmo tempo pode detonar em forma de violência selvagem. Essa característica cruel assusta as pessoas e mantém a sociedade de sobreaviso. Por sorte, entre o desejo de vingança e a execução da ação vingativa existe espaço suficiente para o homem exercer aquilo que a Bíblia chama de livre-arbítrio. A escolha entre o bem e o mal. Refrear o desejo de vingança não é fácil quando alguém sente o coração transbordar de fúria. "A urgência de restauração de um rombo no ego, seja por uma injustiça pessoal, seja pela perda brutal de alguém querido, impede que a pessoa tenha clareza para julgar em que medida o agressor deve pagar pelo que fez", diz a psicanalista Ana Cecília Carvalho, coordenadora de um grupo de pesquisa sobre a psicanálise da vingança na Universidade Federal de Minas Gerais.
A cultura é um fator determinante na freqüência com que os desejos de retaliação se manifestam numa sociedade. O sentimento de vingança é controlado à medida que um país se desenvolve economicamente e suas instituições democráticas se tornam mais sólidas. "Com a melhora de indicadores sociais, econômicos e a conquista de estabilidade política das nações, as pessoas se tornam menos vingativas", diz o economista turco Naci Mocan, autor de um estudo comparativo sobre o desejo de vingança em 53 países. O Brasil aparece em terceiro lugar entre as nações nas quais o sentimento de vingança é mais acentuado, atrás da Bielo-Rússia e da Bélgica. "Se o sistema jurídico funciona, as pessoas esperam que os conflitos terminem com a correção do mal que lhes foi causado", disse o economista a VEJA. Quando não funciona, a insatisfação com o sistema legal estimula os sentimentos de vingança e os indivíduos a buscar a resolução privada de seus conflitos.
Uma forma bem atual de vingança é escrever um livro expondo os podres de um desafeto. A primeira-dama da França, Carla Bruni, já provou desse veneno. No best-seller Nada Grave, de 2004, a escritora francesa Justine Lévy a descreveu como uma predadora sexual que se comporta como se fosse dona de todos os homens. Explique-se tanto ódio: quatro anos antes, Carla havia roubado o marido de Justine. É comum também o ataque direto à parte mais sensível do corpo humano, o bolso. A bilionária americana Leona Helmsley, conhecida como "a rainha da maldade", usou o testamento para se vingar da família, que detestava. Quando morreu, no ano passado, destinou a maior parte da fortuna de 5 bilhões de dólares para instituições de caridade. Também deixou 12 milhões de dólares para seu cãozinho maltês, Trouble. Dois de seus quatro netos receberam quantias equivalentes à metade da legada ao cachorro. Os demais parentes foram simplesmente ignorados. "Eles sabem por quê", escreveu maldosamente Leona no testamento.
Mas qual desses elementos da natureza humana – o desejo de vingança e a capacidade de perdoar – terá dado a maior contribuição na jornada do homem até os dias de hoje? Foi através da vontade de perdoar que a humanidade conseguiu interromper longas espirais de violência provocadas pela vingança. Como o ser humano está propenso a inevitavelmente cometer alguns erros durante sua vida, nada mais normal que ter um pouco de flexibilidade para lidar com eles. "Nós não poderíamos ter evoluído como espécie sem a capacidade de suportar alguns prejuízos de vez em quando", diz o psicólogo americano Michael McCullough. Deixar passar a oportunidade de vingar-se de alguém é uma maneira de prolongar relacionamentos importantes, como um casamento ou uma amizade duradora. McCullough é de opinião que a vontade de perdoar aflora naturalmente no indivíduo mediante certas condições. Somos mais propensos a perdoar uma pessoa quando ela nos dá provas de que jamais vai cometer o mesmo erro. Também perdoamos mais as pessoas das quais sentimos pena. As mais variadas compensações, desde um pedido de desculpas até uma indenização milionária, também servem como estímulos à conciliação. A natureza, que nos armou com o desejo de vingança, sabiamente implantou em nossos genes esse oposto ainda mais poderoso: a capacidade de perdoar. "...e contra nossa vontade / apenas pela graça divina / vem a sabedoria."

Maldade de adolescente
No início de sua carreira de modelo, quando tinha 16 anos, a paranaenseAdriane Grott foi convidada a representar sua escola em um concurso de beleza em Floraí, cidadezinha de 5000 habitantes onde vivia fazia pouco tempo. Para desfilar, pediu emprestada uma saia de uma amiga. Ganhou o concurso e o ódio da colega. "Devolvi a roupa, mas ela espalhou que eu tinha roubado a saia", conta Adriane, hoje com 27 anos. "Em pouco tempo toda a cidade achava que eu era ladra. Foi horrível." A história levou meses para ser esquecida.

A dor aplacada
Ives, filho do comerciante Masataka Ota, foi seqüestrado e morto aos 8 anos, em 1997. O pai indignou-se ao descobrir que os assassinos não podiam ser condenados à prisão perpétua. "Eu queria me vingar de qualquer jeito", conta Ota. "Cheguei a pensar em invadir o fórum no dia do julgamento e matar os três a tiros." Ele desistiu da vingança por entender que significaria um novo sofrimento para a sua família. Anos depois, ele encontrou-se com os assassinos na cadeia. A experiência ajudou a aliviar sua dor. "O ódio e o desejo de vingança não me permitiam viver", diz Ota.

Retaliação planejada
"Passei seis meses arquitetando a vingança contra meu ex-noivo, que havia me difamado para amigos e familiares", conta a professora paulista Janaina Azevedo, 25 anos. Seu primeiro passo foi levar a ex-sogra, que tem trauma de alcoolismo, para ver o filho embriagado num bar. Depois, conseguiu que o ex perdesse dois empregos. Para completar, levou ao grupo de roqueiros do ex-noivo um vídeo em que ele aparecia com pagodeiros – o que acabou com a amizade. "Assim pude dar a história por encerrada", diz.

O que fazer se o assassino sai livre
O advogado Ari Friedenbach é pai de Liana, seqüestrada aos 16 anos, estuprada e assassinada na Grande São Paulo, em 2003. Além da dor pela perda da filha, precisou se conformar com a pena branda aplicada ao assassino – três anos de internação na Febem. "No primeiro momento, sob forte emoção, a opção da vingança passou pela minha cabeça", diz. Para superá-la, engajou-se em discussões sobre a criminalidade e colabora no Programa Liana Friedenbach, da Congregação Israelita Paulista, para a formação de jovens líderes comunitários.

Incidente no shopping
A empresária Maria Amélia Aquino, de 57 anos, admite que sente prazer na vingança. Certa vez, enquanto esperava para estacionar o carro em um shopping, uma mulher rapidamente ocupou a vaga. Maria Amélia reclamou e tudo o que ouviu foi: "Querida, pode ter certeza de que a minha pressa é muito maior que a sua. Se quiser ficar aqui aguardando, eu volto já". Maria Amélia esperou a atrevida entrar no shopping e esvaziou os quatro pneus do carro dela. Ainda deixou um bilhete: "Estava com tanta pressa, querida, mas agora vai ter de esperar o guincho para te levar para casa".

Sem vergonha de ser vingativo
O americano Jared Diamond, da Universidade da Califórnia, é autor do best-seller Colapso, em que analisa o que leva uma sociedade ao fracasso. Em seu próximo livro, ainda sem título, Diamond compara hábitos prevalentes em diversos tipos de sociedade. O escritor conversou com o editor Diogo Schelp.
De que maneira a vingança em comunidades tribais se diferencia da existente nas sociedades modernas?Na ausência de um poder central, as pessoas têm o direito de revidar por conta própria. Isso cria ciclos intermináveis de violência. Já quem vive em um estado moderno é estimulado a conter o desejo de vingança. Se as pessoas fossem livres para retaliar à vontade, a sociedade entraria em colapso.
As sociedades tribais são mais violentas?Ao contrário, elas tendem a encaminhar as disputas para a conciliação. Na sociedade moderna aprendemos que os sentimentos vingativos são primitivos e que deveríamos ter vergonha de senti-los. Isso faz com que a maneira moderna de resolver disputas em tribunais – em casos de divórcio, herança ou acidentes de automóveis, por exemplo – não favoreça a reconciliação. Temos de encontrar uma forma mais saudável de lidar com a vingança, sem cometer excessos ou infringir a lei. O primeiro passo é admitir a existência desse sentimento e não enterrá-lo em algum canto da memória.
A vingança tem um papel nas guerras que os Estados Unidos travam no Iraque e no Afeganistão?Os Estados Unidos atacaram o Afeganistão logo após os atentados de 11 de setembro, em 2001. A pergunta é: fomos à guerra em busca de vingança pelos ataques às torres gêmeas? Era perfeitamente óbvio que se os Estados Unidos não fizessem algo estariam mostrando ao mundo sua fraqueza. A invasão americana do Iraque é uma situação diferente. Há quem diga que nosso presidente, George W. Bush, tomou essa decisão para terminar o trabalho que seu pai deixara pela metade durante a primeira guerra do Golfo, quando Saddam Hussein pôde conservar o poder.
O conflito entre israelenses e palestinos pode ser analisado sob a óptica da vingança?A hostilidade entre israelenses e os vizinhos árabes me lembra as guerras tribais em Papua-Nova Guiné. Os familiares de alguém assassinado vingam-se matando um membro do clã do assassino. Esse clã, por sua vez, se vê na obrigação de retaliar com nova morte e assim sucessivamente. O resultado é uma guerra sem fim, em que nenhum dos lados aceita ceder. Mas essas guerras também chegam ao fim. Para que isso ocorra é preciso preencher uma das três condições. Primeira, ambos os lados têm perdas massivas e equivalentes. Segunda, ambos ficam esgotados e surge uma terceira parte que os ajuda a se reconciliar. Terceira, minha experiência em Papua-Nova Guiné mostra que o surgimento de um inimigo comum também pode levar ao fim um conflito entre dois inimigos tradicionais. Só não sei dizer qual dessas circunstâncias levará à paz entre palestinos e israelenses.

Punir e não vingar
A humanidade encontrou maneiras de conter a força vingativa que existe na natureza humana. O principal controle foi o sistema judiciário, que passou a mediar as disputas entre vítimas e agressores.
• Orestéia (458 a.C.) A tragédia grega, de Ésquilo, representa o fim do direito privado à vingança como forma de defender a honra. A punição passa a ser decidida por um tribunal.
• Marco Aurélio (121-180) O imperador estóico, adepto da filosofia da moderação, deu mais direitos aos acusados e eliminou abusos nas penas aplicadas pelo direito romano.
• Thomas Hobbes (1588-1679) Para o filósofo inglês, a punição institucional não deveria compensar um mal passado, mas sim auxiliar na construção de uma sociedade melhor.
• Cesare Beccaria (1738-1794) O criminologista italiano combateu a tortura e o tratamento cruel dado aos presos. Para ele, a finalidade da punição é desestimular a reincidência e novos crimes.
• Cadeira elétrica (1890) Em princípio, a pena de morte é aplicada a criminosos cujos impulsos violentos não seriam contidos pela cadeia. Hoje é considerada desumana na maioria dos países.
Com reportagem de Carolina Romanini e Roberta de Abreu Lima
Matéria publicada em Veja.com, em 3 de setembro de 2008.

Jorge Hessen* comenta
QUANTAS VEZES PERDOAREI MEU IRMÃO? UM DILEMA ENTRE A TOLERÂNCIA E A VINGANÇA
"Aprendestes que foi dito: olho por olho e dente por dente. - Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal que vos queiram fazer; que se alguém vos bater na face direita, lhe apresenteis também a outra; - e que se alguém quiser pleitear contra vós, para vos tomar a túnica, também lhes entregueis o manto; - e que se alguém vos obrigar a caminhar mil passos com ele, caminheis mais dois mil. - Dai àquele que vos pedir e não repilais aquele que vos queira tomar emprestado".(1)
Como não resistir, como fazer ainda mais do que nos exigem os que nos ofendem? O que entendemos por perdoar? Como perdoar sem permitir que o mal nos envolva, sem nos deixar ficar sob as instâncias daqueles que nos magoam, que nos prejudicam ou nos ferem? Essas questões são instigantes. Todavia, o bom senso nos impõe a seguinte dedução: precisamos compreender e desculpar, ilimitadamente, porque todos nós necessitamos de compreensão e desculpa nas horas do desacerto, mas urge que analisemos os fatos para que os diques da tolerância não se rompam, corroídos pela displicência sistemática, patrocinando a desordem.
Diferentemente do ensino do Cristo, parece fazer parte do mecanismo instintivo de defesa dos seres humanos revidar tapas a um agressor. Neste sentido, segundo alguns, dar a outra face é uma atitude de eficácia duvidosa, contrariando o que Jesus pregou há mais de dois mil anos. Segundo opiniões de pesquisadores mais centrados no materialismo, as religiões, antes de Cristo, não apenas amparavam como, também, incentivavam a vingança desproporcional ao agravo. Os Velhos Textos estão repletos de passagens do tipo "olho por olho", dizem esses estudiosos. Argumentam, ainda, que, como instituição, a religião é má conselheira no assunto tolerância. As guerras religiosas sempre foram, e ainda são as mais inexplicáveis, as mais duradouras e as mais cruéis da história humana.
Por que carregamos em nossa intimidade o rancor e o pendor à vingança? Isto pode ser atribuído a perturbações mentais ou morais, a pais ausentes na infância, a questões culturais. Para Jeffrie Murphy "a cultura é um fator determinante na frequência com que os desejos de retaliação se manifestam numa sociedade." Murphy afirma, ainda, (pasmem!) que a Pátria do Evangelho "aparece em terceiro lugar nas estatísticas entre as nações nas quais o sentimento de vingança é mais acentuado, atrás da Bielo-Rússia e da Bélgica".(2) Para alguns estudiosos, o desejo de vingança é uma parte perfeitamente normal da natureza humana e sua supressão pode ser, apenas, um daqueles recalques que a vida moderna em sociedade nos incute. Há quem descubra qualidades no ressentimento. Jeffrie sugere três (acreditem!): auto-respeito, autodefesa e respeito pela ordem moral. "A pessoa que nunca se ressente, seja de qual for a ofensa, pode ser um santo. Mas, a falta de ressentimentos pode também revelar uma personalidade servil e sem respeito por seus direitos e sua condição de indivíduo livre e moralmente respeitável."(3)
Leona Helmsley, uma bilionária norte-americana, usou o testamento para se vingar da família, que detestava. Quando desencarnou, destinou a maior parte da fortuna, de cinco bilhões de dólares, para instituições de caridade (aqui agiu corretamente), porém, também deixou doze milhões de dólares para seu cãozinho maltês, Trouble. Dois, de seus quatro netos, receberam quantias equivalentes à metade da legada ao cachorro. Os demais parentes foram, simplesmente, ignorados. "Eles sabem por quê", escreveu Leona como clara vingança no testamento.(4)
Perdoar coisas leves, contra nós mesmos, é relativamente fácil, mas, quando se trata de algo mais sério, como um assassinato, um estupro, por exemplo, a dificuldade de superação da mágoa aumenta, consideravelmente. Sabemos que refrear o desejo de vingança não é fácil quando alguém sente o coração transbordar de fúria. Contudo, não podemos esquecer que, entre o desejo de vingança e a execução da ação vingativa, existe espaço suficiente para exercermos o livre-arbítrio, ou seja, a escolha entre o bem e o mal. A vingança será sempre uma atitude insensata e inútil, até porque, nenhum benefício trará ao nosso progresso, e, uma vez consumada, terá satisfeito, apenas, à nossa inconformação diante dos desconhecidos motivos do nosso infortúnio.
O convívio com criaturas e sistemas imperfeitos, capazes de nos infligir os mais variados constrangimentos, cerceamentos, limitações, vicissitudes e agressões, constitui o objetivo moral da reencarnação, de modo que disciplinemos, em definitivo, as ideias superiores da vida e as incorporemos ao acervo dos valores que já edificamos no espírito. Nesse sentido, "o perdão é superação do sentimento perturbador do desforço, das figuras de vingança e de ódio, através da perfeita integração em si mesmo, sem deixar-se ferir pelas ocorrências afligentes dos relacionamentos interpessoais".(5) E, mais ainda, pesquisas indicam que o ato de perdoar pode aplacar a tensão, reduzir a pressão sanguínea e diminuir a taxa de batimentos cardíacos. Portanto, é uma questão de saúde. O perdão passou a ser investigado pela medicina. Os vários estudos em andamento seguem a tendência de analisar a influência das emoções na saúde. Perdoar, imagina-se, livra o corpo de substâncias que só fazem mal. Essa tese faz parte do livro O poder do perdão de Luskin.(6)
A intolerância quase sempre dá lugar à agressividade. As decisões emocionais rebentam rápidas como torrentes. Sem a participação do bom senso, são capazes de danificar a harmonia de muita gente. Se nos examinarmos bem, chegamos à conclusão de que sempre poderemos ser mais tolerantes do que temos sido, habitualmente. Porém, há coisas que socialmente são intoleráveis, como a violação dos direitos humanos ou a destruição do planeta, a pedofilia, a corrupção, etc. Muitos "tolerantes" tíbios, eivados de preguiça e inconsciência, mantêm atitude de quem não está «para se chatear», porque isso dá trabalho e, às vezes, até, exige alguma abnegação, mas, isso é covardia! Tolerância não é indiferença, nem conivência, nem timidez. Pelo contrário, a tolerância pressupõe entendimento superior, sem orgulho ou vaidade; assenta-se na coragem esclarecida para beneficiamento de todos, inclusive dos adversários.
Um método corajoso de perdão foi colocado em prática por Mahatma Gandhi, o Satyagraha(7), isto é, conquistar o adversário, chamando, para si, o sofrimento, objetivando despertar a consciência moral daquele que se quer convencer de que o ato que pratica é impróprio. É um método ousado de perdão, porque implica na tentativa de sensibilizar o agressor no sentido de reverter seu comportamento. Jesus aconselhou amar os nossos inimigos no enfoque de não devolver com a mesma moeda aquilo que nos foi desferido. Oferecer, porém, a outra face (a face do bem), pois, assim, cortar-se-iam, pela raiz, os sentimentos de vingança.
Diante das agressões recebidas, o Cristo passava lições grandiosas, como aconteceu com o soldado que O esbofeteou quando estava de mãos amarradas. Sem perder a serenidade habitual, o Cristo olhou-o nos olhos e lhe perguntou: "se eu errei, aponta meu erro, mas se não errei, por que me bates?"(8) Eis, aí, a verdadeira coragem. O Mestre sofreu a ingratidão daqueles os quais havia ajudado, enfrentou o cinismo dos agressores, foi ultrajado, caluniado, cuspiram-Lhe no rosto e O crucificaram, e Ele tomou uma única atitude: a do perdão.(9) Lembrou da importância de não se colocar limite ao ato de perdoar. "Se vosso irmão pecou contra vós, ide e falai-lhe sobre a falta em particular, entre vós e ele. Se vos ouvir, tereis ganhado um irmão." Então, aproximando-se dele, Pedro disse: "Senhor, quantas vezes perdoarei meu irmão quando ele houver pecado contra mim? Será até sete vezes?" Jesus lhe respondeu: "Eu não digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete."(10)
"No Cristianismo encontram-se todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram".(11) Jesus não quis dizer para deixarmos de reprimir o mal, mas para não pagar o mal com outro mal. Perdão é o pagamento do mal com o Bem... O perdão nivela os homens pelo que neles há de melhor, libertando quem perdoou dos maus sentimentos que o escravizavam a quem o feriu. Mal por mal significa o eclipse absoluto da razão. "Por mais aflitiva seja a lembrança do adversário, recordemo-lo em nossas preces e nas meditações, por irmão necessitado de nossa assistência fraterna. Ainda não readquirimos nossa memória integral do passado e nem sabemos o que nos ocorrerá no futuro".(12) Que seria da Humanidade se não existisse a paciência e a tolerância do Criador para com as criaturas imperfeitas e rebeldes que somos? Perdoar é um ato inteligente, que nos liberta de outras ansiedades e perturbações que nem precisamos enfrentar. Então!... Para quê guardar mágoa?

Fontes:
1) Cf. Mateus, cap. V, vv. 38 a 42;
2) Jeffrie Murphy, autor do livro Acertando as Contas: o Perdão e Seus Limites, disponível em <http://arquivoetc.blogspot.com/2008/08/especial-dilema-eterno-da-humanidade.html>, acessado em 16/01/2009;
3) Idem;
4) Disponível em <http://veja.abril.com.br/030908/p_086.shtml>, acessado em 15/01/2009;
5) Franco, Divaldo Pereira. O Evangelho à Luz da Psicologia Profunda, ditado pelo Espírito Joanna de Ângelis, Salvador: Editora: LEAL, 2001;
6) Luskin Frederic. O poder do perdão, São Paulo: editora: Novo Paradigma, 2002;
7) Termo cunhado pelo pacifista indiano Mahatma Gandhi em sua campanha pela independência da Índia. Significa o princípio da não-agressão, ou uma forma não-violenta de protesto, como um meio de revolução;
8) Franco, Divaldo Pereira. Palavras de Luz, Sob a inspiração de diversos espíritos, Salvador: Ed. FEEB, 1993;
9) Romanelli, Rubens Costa. Primado do Espírito, BH: Ed. Síntese, 1966, Cap. 15;
10) Cf. Mateus, XVIII: V, vv. 15, 21 e 22;
11) Kardec, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, RJ: Ed FEB, 2003, cap. VI, item 5, 118;
12) Xavier, Francisco Cândido, Nos Domínios da Mediunidade, ditado pelo Espírito André Luiz, RJ: Ed. FEB, 2001.
* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.

domingo, 1 de setembro de 2013

Ajuda-te

Sim, nas leis da reencarnação, quase todos nós, os filhos da Terra, temos o passado a resgatar, o presente a viver e o futuro a construir.

Lembremo-nos, assim, de que, nas concessões da Providência Divina, o nosso mais precioso lugar de trabalho chama-se “aqui” e o nosso melhor tempo chama-se “agora”.

Detenhamo-nos, por isso, na importância das horas de hoje.

Ontem, perturbação.

Hoje, reequilíbrio.

Ontem, o poder transviado.

Hoje, a subalternidade edificante.

Ontem, a ostentação.

Hoje, o anonimato.

Ontem, a incompreensão.

Hoje, o entendimento.

Ontem, o desperdício.

Hoje, a parcimônia.

Ontem, a ociosidade.

Hoje, a diligência.

Ontem, a sombra.

Hoje, a luz.

Ontem, o arrependimento.

Hoje, a reconstrução.

Ontem, a violência.

Hoje, a harmonia.

Ontem, o ódio.

Hoje, o amor.

Diz-nos a sabedoria de todos os tempos — “Ajuda-te que o Céu te ajudará” —, afirmativa sublime que nos permitimos parafrasear, acentuando: “Ajuda-te hoje, que o Céu te ajudará sempre”.





Autor: André Luiz
Psicografia de Francisco Cândido Xavier


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

REENCARNAÇÃO

 
“A reencarnação é a volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas em outro corpo especialmente formado para ele e que nada tem de comum com o antigo”. (Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. IV). Assim, não é invenção do Espiritismo, mas sim algo natural, de modo que foi um tema muito discutido e difundido ao longo da História da Humanidade por muitos muitos pensadores, tais como Sócrates, Pitágoras, Platão, Apolônio e Empédocles.

Jesus – o Incomparável, o Mestre, o único Guia e Modelo -, em várias oportunidades afirmou a existência da reencarnação
Em João (capítulo III, versículos de 1 a 12), encontramos a elucidativa palestra de Jesus com Nicodemos (doutor da lei judeu):
Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo que ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo”.

Perguntou-lhe, então, Nicodemos: "Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez?"
Jesus respondeu: Em verdade, em verdade vos digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; o mesmo se dá com todo aquele que é nascido do Espírito”.

“Como pode ser isso?”, disse-lhe Nicodemos.
Jesus, então, afirmou: “Tu és mestre de Israel e não sabes?”
Digo-te em verdade, em verdade, que não dizemos senão o que sabemos e que não damos testemunho, senão do que temos visto. Entretanto, não aceitas o nosso testemunho. - Mas, se não me credes, quando vos falo das coisas da Terra, como me crereis, quando vos fale das coisas celestiais?"
Também, veremos a referência de Jesus com relação a João Batista ser reencarnação de Elias, referência está que está contida em Mateus (capítulo XVII, versículos 10 a 13).

Os discípulos indagaram ao Mestre: “Por que, pois, dizem os escribas que é preciso que Elias venha primeiro?”
E Jesus respondeu-lhes: “É verdade que Elias deve vir e restabelecer as coisas; mas eu vos declaro que Elias já veio e não o conheceram, mas fizeram-lhe tudo o que quiseram. É assim que eles farão sofrer o Filho do Homem. Então os discípulos compreenderam que ele lhes falara de João Batista".
“Ora, desde o tempo de João Batista até o presente, o reino dos céus é tomado pela violência e são os violentos que o arrebatam; - pois que assim o profetizaram todos os profetas até João, e também a lei. - Se quiserdes compreender o que vos digo, ele mesmo é o EIias que há de vir. - Ouça-o aquele que tiver ouvidos de ouvir. (MATEUS, cap. XI, versículos de 12 a 15.)
“Se o princípio da reencarnação, conforme se acha expresso em S. João, podia, a rigor, ser interpretado em sentido puramente místico, o mesmo já não acontece com esta passagem de S. Mateus, que não permite equívoco: ELE MESMO é o Elias que há de vir. Não há aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva. -"Desde o tempo de João Batista até o presente o reino dos céus é tomado pela violência." Que significam essas palavras, uma vez que João Batista ainda vivia naquele momento? Jesus as explica, dizendo: "Se quiserdes compreender o que digo, ele mesmo é o Elias que há de vir." Ora, sendo João o próprio Elias, Jesus alude à época em que João vivia com o nome de Elias. "Até ao presente o reino dos céus é tomado pela violência": outra alusão à violência da lei moisaica, que ordenava o extermínio dos infiéis, para que os demais ganhassem a Terra Prometida, Paraíso dos hebreus, ao passo que, segundo a nova lei, o céu se ganha pela caridade e pela brandura.

E acrescentou: Ouça aquele que tiver ouvidos de ouvir. Essas palavras, que Jesus tanto repetiu, claramente dizem que nem todos estavam em condições de compreender certas verdades”. (Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo IV).

Jesus, tendo vindo às cercanias de Cezaréia de Filipe, interrogou assim seus discípulos: "Que dizem os homens, com relação ao Filho do Homem? Quem dizem que eu sou?" - Eles lhe responderam: "Dizem uns que és João Batista; outros, que Elias; outros, que Jeremias, ou algum dos profetas." - Perguntou-lhes Jesus: "E vós, quem dizeis que eu sou?" - Simão Pedro, tomando a palavra, respondeu: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." - Replicou-lhe Jesus: "Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne nem o sangue que isso te revelaram, mas meu Pai, que está nos céus." (Mateus, cap. XI, versículos 13 a 17; Marcos, cap. VIII, versículos 27 a 30)
Ora, se os homens da época refletiam sobre que era Jesus, obviamente acreditavam na reencarnação.

“Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo; aqueles que estavam mortos em meio a mim ressuscitarão. Despertai do vosso sono e entoai louvores a Deus, vós que habitais no pó; porque o orvalho que cai sobre vós é um orvalho de luz e porque arruinareis a Terra e o reino dos gigantes.

(ISAÍAS, cap. XXVI, versículo 19)

“É também muito explícita esta passagem de lsaías: "Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo." Se o profeta houvera querido falar da vida espiritual, se houvera pretendido dizer que aqueles que tinham sido executados não estavam mortos em Espírito, teria dito: ainda vivem, e não: viverão de novo. No sentido espiritual, essas palavras seriam um contra-senso, pois que implicariam uma interrupção na vida da alma. No sentido de regeneração moral, seriam a negação das penas eternas, pois que estabelecem, em princípio, que todos os que estão mortos reviverão”. (Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo IV)

14. Mas, quando o homem há morrido uma vez, quando seu corpo, separado de seu espírito, foi consumido, que é feito dele? -Tendo morrido uma vez, poderia o homem reviver de novo? Nesta guerra em que me acho todos os dias da minha vida, espero que chegue a minha transformação. (João, cap. XIV, versículos 10 a 14. Tradução de Le Maistre de Sacy.)

Quando o homem está morto, vive sempre; acabando os dias da minha existência terrestre, esperarei, porquanto a ela voltarei de novo. (ID. Versão da Igreja grega.)

15. Nessas três versões, o princípio da pluralidade das existências se acha claramente expresso. Ninguém poderá supor que João haja querido falar da regeneração pela água do batismo, que ele de certo não conhecia. "Tendo o homem morrido uma vez, poderia reviver de novo?" A idéia de morrer uma vez, e de reviver implica a de morrer e reviver muitas vezes. A versão da Igreja grega ainda é mais explícita, se é que isso é possível: "Acabando os dias da minha existência terrena, esperarei, porquanto a ela voltarei", ou, voltarei à existência terrestre. Isso é tão claro, como se alguém dissesse: "Saio de minha casa, mas a ela tornarei”.

"Nesta guerra em que me encontro todos os dias de minha vida, espero que chegue a minha transformação". João, evidentemente, pretendeu referir-se à luta que sustentava contra as misérias da vida. Espera a sua mutação, isto é, resigna-se. Na versão grega, esperarei parece aplicar-se, preferentemente, a uma nova existência: "Quando a minha existência estiver acabada, esperarei, porquanto a ela voltarei". João como que se coloca, após a morte, no intervalo que separa uma existência de outra e diz que lá aguardará o momento de voltar.

Nestas passagens, assim como em outras, fica muito clara a existência das reencarnações. Como diria o Mestre, “Ouça aquele que tem ouvidos para ouvir”.

  Finalizando, em O Livro dos Espíritos, Kardec indaga na questão 132:
Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?

Resposta dos Espíritos Superiores: 
"Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação. Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação. Para executá-la é que, em cada minuto, toma o Espírito um instrumento, de harmonia com a matéria essencial desse mundo, a fim de aí cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. É assim que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta".

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Aborto

Apresentamos nesta edição o tema no 56 do Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, que está sendo aqui apresentado semanalmente, de acordo com programa elaborado pela Federação Espírita Brasileira, estruturado em seis módulos e 147 temas.
Se o leitor utilizar este programa para estudo em grupo, sugerimos que as questões propostas sejam debatidas livremente antes da leitura do texto que a elas se segue.
Se destinado somente a uso por parte do leitor, pedimos que o interessado tente inicialmente responder às questões e só depois leia o texto referido. As respostas correspondentes às questões apresentadas encontram-se no final do texto abaixo.
Questões para debate
1. Como o Espiritismo conceitua o aborto praticado sem causa justa?
2. Três erros podem se destacar no aborto delituoso. Quais são eles?
3. Que espécie de aborto é admitida pela Doutrina Espírita?
4. Que doenças podem resultar diretamente da prática do aborto delituoso?
5. Que conseqüências de natureza espiritual pode o aborto acarretar?
Texto para leitura 

O aborto delituoso é a negação do amor

1. O aborto é, no entendimento unânime dos Espíritos superiores, um doloroso crime. Arrancar uma criança ao seio materno é infanticídio confesso. Uma mãe ou quem quer que seja cometerá crime sempre que tirar a vida a uma criança antes do seu nascimento, porque impede ao reencarnante passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando.   
2. Podem-se destacar três erros no procedimento dessas mães. O primeiro: impedir que um Espírito reencarne e, por conseguinte, progrida. Segundo: recusar um filho que talvez represente o instrumento que Deus tenha dado aos pais para ajudá-los na jornada evolutiva, através dos cuidados, das renúncias, das preocupações e trabalhos que teriam. Terceiro: transgredir o mandamento divino “Não matarás” e de uma forma em que a vítima se encontra em situação de desigualdade, sem a menor chance de se defender.         
3. O aborto delituoso é a negação do amor. Esmagar uma vida que desponta, plena de esperança; impedir a alma de reingressar no mundo corpóreo; negar ao Espírito o ensejo do reajuste, representa, em qualquer lugar, situação e tempo, inominável crime, de prolongadas e dolorosas conseqüências para o psiquismo humano. 
4. A Humanidade terrena encontra-se presentemente atacada por uma série de males. São homicídios, assaltos, assassínios, doenças, fome, catástrofes, ignorância, guerras, o que faz com que o mundo viva em constantes convulsões sociais. Um crime, porém, existe mais doloroso, pela volúpia de crueldade com que é praticado, no silêncio do santuário doméstico ou no regaço da Natureza – um crime estarrecedor, porque a vítima não tem voz para suplicar piedade nem braços robustos com que se confie aos movimentos da reação. Referimo-nos ao aborto delituoso, em que pais inconscientes determinam a morte dos próprios rebentos, asfixiando-lhes a existência antes que possam sorrir para a bênção da luz.

Moléstias de etiologia obscura decorrem do aborto

5. Em muitos países, o aborto sem causa justa – e por causa justa devemos considerar apenas o chamado aborto terapêutico, que objetiva salvar a vida da gestante – encontra amparo na lei, mas, de acordo com a Doutrina Espírita, o aborto não encontra justificativa perante Deus, a não ser em casos especialíssimos, como o citado, em que o médico honrado, sincero e consciente entende que a continuação da gravidez põe em perigo a vida da gestante.  Somente ao médico, porém, e a mais ninguém, dá a Ciência autoridade para emitir esse parecer.
6. De acordo com o ensinamento espírita, é o aborto delituoso um dos grandes fornecedores das moléstias de etiologia obscura e das obsessões catalogáveis na patologia da mente, que ocupam vastos departamentos de hospitais e prisões da Terra. A mulher que o promove ou que venha a coonestar semelhante delito é constrangida, por leis irrevogáveis, a sofrer alterações deprimentes no centro genésico de sua alma, predispondo-se a dolorosas enfermidades, como a metrite ([1]), o vaginismo ([2]), a metralgia ([3]), o enfarte uterino ou a tumoração cancerosa, flagelos esses com os quais, muita vez, desencarna, demandando o Além para responder, perante a Justiça divina, pelo crime praticado. 
7. É então que se reconhece rediviva, mas doente e infeliz, porque, pela incessante recapitulação mental do ato abominável, através do remorso, reterá por tempo longo a degenerescência das forças genitais.
8. A mulher que corrompeu voluntariamente o seu centro genésico – informa André Luiz em Ação e Reação, pp. 210 e 211 – receberá de futuro almas que viciaram a forma que lhes é peculiar, e será, assim, mãe de criminosos e suicidas, regenerando as energias sutis do perispírito através do sacrifício nobilitante com que se devotará aos filhos torturados e infelizes de sua carne, aprendendo a orar, a servir com nobreza e a mentalizar a maternidade pura e sadia, que acabará reconquistando ao preço de sofrimentos e trabalho justos.

O aborto pode ser a porta que se fecha para os nossos amigos

9. As conseqüências espirituais do aborto estão bem caracterizadas na experiência seguinte que nos é relatada por Suely Caldas Schubert em seu livroObsessão/Desobsessão, editado em 1981 pela Federação Espírita Brasileira. No cap. 9 da terceira parte da citada obra, Suely Schubert relata três comunicações mediúnicas relacionadas com o aborto e seus efeitos.
10. A primeira é a de um médico que, enquanto encarnado, dedicou-se a essa prática. Ora, o abortamento – exceto quando realizado para salvar a vida da gestante posta em perigo – é considerado um crime aos olhos de Deus e nada há que o justifique. O médico desencarnado apresentou-se, portanto, extremamente perturbado, dizendo-se perseguido por vários Espíritos. Acusando-se a si mesmo de criminoso, estava aterrorizado com seus atos. O arrependimento lhe chegara já na vida espiritual; não obstante, demonstrava muito medo de seus perseguidores, entre os quais se contavam algumas das vítimas de seu bisturi.
11. O segundo comunicante era uma mulher que havia morrido durante a realização de um aborto. Atormentada pelo remorso dessa ação, nutria um ódio especial pelo médico que a atendera, a quem, agora, perseguia, desejosa de vingança.
12. A terceira entidade a se comunicar era também uma mulher que cometera um aborto em sua última existência na Terra. Sendo pobre e lutando com muitas dificuldades para a manutenção dos filhos, a coitada desorientou-se ao engravidar e procurou uma forma de abortar aquele que seria o sexto filho. Praticado o crime, o arrependimento foi-lhe terrível e imediato. Jamais ela se perdoou por esse gesto e, desse modo, sofreu duplamente ao carregar pelo resto de seus dias o peso do remorso. Sua existência foi longa e difícil. Enfrentou as asperezas e dificuldades da vida e, ao fim de prolongada moléstia, desencarnou. O plano espiritual reservou-lhe, porém, uma surpresa. Ao desencarnar, encontrou-se com o Espírito do filho rejeitado e grande foi seu abalo ao verificar que ele era um ente muito querido ao seu coração, companheiro de lutas do passado, que renasceria em seu lar com a finalidade precípua de ajudá-la a tornar menos amargos os seus dias.
13. Espírito de certa elevação moral, ele há muito lhe perdoara a atitude infeliz, mas ela jamais se conformou com o ato praticado e agora, no plano espiritual, tomara a si a tarefa de socorrer as pessoas tendentes a cometer o mesmo erro, para mostrar-lhes que o destino é construção individual e que o aborto, longe de ser solução para as dificuldades da vida, será sempre o agravamento dos nossos males, quando não a porta que se fecha para os nossos melhores amigos.

[1] Metrite: inflamação do útero.
[2] Vaginismo: contração espasmódica do músculo constritor da vagina.
[3] Metralgia: dor no útero.
Respostas às questões propostas 
1. Como o Espiritismo conceitua o aborto praticado sem causa justa? R.: No entendimento unânime dos Espíritos superiores, o aborto sem causa justa é um doloroso crime. Uma mãe ou quem quer que seja cometerá crime sempre que, sem motivo válido, tirar a vida a uma criança antes do seu nascimento.
2. Três erros podem se destacar no aborto delituoso. Quais são eles? R.: O primeiro: impedir que um Espírito reencarne e, por conseguinte, progrida. Segundo: recusar um filho que talvez represente o instrumento que Deus tenha dado aos pais para ajudá-los na jornada evolutiva, através dos cuidados, das renúncias, das preocupações e trabalhos que teriam. Terceiro: transgredir o mandamento divino “Não matarás”.
3. Que espécie de aborto é admitida pela Doutrina Espírita? R.: É o chamado aborto terapêutico, que objetiva salvar a vida da gestante posta em perigo com a continuação da gestação.
4. Que doenças podem resultar diretamente da prática do aborto delituoso? R.: Segundo o ensinamento espírita, o aborto delituoso é um dos grandes fornecedores das moléstias de etiologia obscura e das obsessões catalogáveis na patologia da mente, que ocupam vastos departamentos de hospitais e prisões da Terra. A mulher que o promove ou que venha a coonestar semelhante delito é constrangida, por leis irrevogáveis, a sofrer alterações deprimentes no centro genésico de sua alma, predispondo-se a dolorosas enfermidades, como a metrite, o vaginismo, a metralgia, o enfarte uterino ou a tumoração cancerosa, flagelos esses com os quais, muita vez, desencarna, demandando o Além para responder, perante a Justiça divina, pelo crime praticado. 
5. Que conseqüências de natureza espiritual pode o aborto acarretar? R.: A obsessão e o sofrimento moral são algumas das conseqüências de ordem espiritual ocasionadas pelo aborto delituoso. Suely Caldas Schubert trata do assunto em seu livro Obsessão/Desobsessão, terceira parte, cap. 9.

Bibliografia
:
O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, itens 358 e 359.   
Vida e Sexo, de Emmanuel, psicografado por Francisco Cândido Xavier, 6a edição, p. 76.
Luz no Lar, de Autores diversos, psicografado por Francisco Cândido Xavier, 3a edição, pp. 54 e 55.
O Pensamento de Emmanuel, de Martins Peralva, 2a edição, pp. 124 a 126.
Após a Tempestade, de Joanna de Ângelis, psicografada por Divaldo P.Franco, 2a. edição, pp. 67 e 68.
Ação e Reação, de André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier, 8a. edição, pp. 210 e 211.